08 Abril de 2006 . Joinville
O "feitiço'' e seus conflitos


Ser funcionário sim, empregado não!

A condição histórica das pessoas de se tornarem dependentes da organização, de pensar que são fracos sozinhos, que não existe outro lugar melhor para se trabalhar, sempre se fizeram presentes tanto na história da organização empresarial, quanto na própria organização da sociedade. O mesmo acontecia na relação de dependência do senhor e o escravo, em que o escravo “emprestava” à organização sua força de vida, sua inteligência, em fim, todo seu potencial. Logo, a relação de produção do trabalho se caracterizou pela divisão social do mesmo e pela criação de duas classes sociais: a que detém o poder e o capital; e aquela que se submete ao poder pela produção, que ganha seu sustento por meio deste.

Assim como disse Charles Chaplin em seu último discurso em O Grande Ditador “... Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos deixaram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.”, a professora do INPG e mestre em Educação e Filosofia da Educação, Maria Aparecida Rhein Schirato mais do que abrir nossos olhos dominados pelos feitiços organizacionais faz-nos trilhar por caminhos da reflexão nunca antes percorridos.



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Nicole da Rosa Gomes
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2006 Tenho tratado exaustivamente do tema “feitiço” dentro das organizações. Em todo momento, situações de sedução, de pseudo-sinalizações de ganhos e benefícios, de possíveis promoções são colocadas, diante do funcionário das empresas, como formas de garantia de sua fidelidade e de sua dedicação ao trabalho, relegando, assim, em segundo plano, o seu potencial profissional, a sua ética e, sobretudo, seu compromisso pessoal para com o andamento e desenvolvimento da própria carreira.

Ingenuamente, estes possíveis elementos motivadores pretendem resolver conflitos que estão presentes no dia-a-dia das organizações, como se desviando a atenção do trabalhador daquilo que o incomoda e o faz sofrer e focando em promessas pouco prováveis de serem cumpridas, a paz e a harmonia do bom clima organizacional voltasse a reinar.

Não será, certamente, maquiando as dificuldades do cotidiano da convivência, com pequenos ou grandes pacotes promocionais, que se eleva o nível de maturidade das pessoas e se administra positivamente as situações de conflitos. Os conflitos são duramente resistentes a estas possíveis manipulações e, podem, eventualmente, permanecer em latência durante muito tempo, demonstrando pequenos sinais de sobrevida: boicotes, mal-humor, absenteísmo, acidentes, doenças gástricas, chacotas, etc., ou seja, inúmeros sintomas de que são vitimas os envolvidos em tais conflitos. Não só eles não desaparecem neste intercâmbio infantil de queixa-agrado, como se alimentam silenciosamente na repressão, podendo se tornar fora do controle e da possibilidade de administração quando saírem da latência e se manifestarem efetivamente. A má vontade de muitos líderes em ouvir sua equipe; o autoritarismo das políticas de Recursos Humanos, mais punindo do que educando; a escassez de vagas no mercado e o fantasma do desemprego; a carência de políticas públicas decentes; a formação precária de muitos trabalhadores e a baixa qualificação de muitas lideranças são ingredientes perfeitos para a repressão e o silenciamento do conflito e a sua detonação posterior sob a forma de demissão, ruptura, brigas sem acordo e deserções.

É preciso, urgentemente, desenvolver, sobretudo nas lideranças, a competência de administrar os conflitos, criando instrumentos técnicos efetivos de discussão sobre aquilo que incomoda, aquilo que está machucando, aquilo que não foi assimilado. O adiamento é uma categoria importante a ser levada em conta, porém, muitas vezes, não se está adiando para um momento mais oportuno o enfrentamento de um conflito, mas se tem o pensamento mágico de que deixar para depois é jogar no esquecimento e, perde-se, portanto o momento adequado da  facilitação do líder para o entendimento, perde-se o momento de administrar o conflito. Como já disse anteriormente, o conflito esquecido se fortalece, arma-se de outras e outras defesas. O conflito recalcado não está morto, ao contrário, está se fortalecendo para o revide, finge-se contente, porém, silencioso, está pronto para o ataque e, sem que se perceba, situações relativamente simples transformam a convivência em campo de guerra.            

Não acredito que haja intenção nas pessoas de recalcar-alimentar o conflito. O que a experiência tem me mostrado é a imensa dificuldade das pessoas em lidar com os conflitos. Por ser um campo relativamente novo de estudo - dado ao fato de que a administração dos conflitos pertence a uma visão moderna das organizações, onde a convivência, a participação das pessoas, as sugestões são condições essenciais para a realização do trabalho -, ainda se repete esquemas antigos, ou conservadores, para a administração dos conflitos, usando indiferentemente a força da autoridade ou a sedução, o feitiço, que não deixa de ser a outra face da mesma moeda, ou seja, tentar seduzir também é uma forma de impor autoridade, de manter o controle da situação para obter as respostas desejadas.            

Quando as pessoas estão seguras em saber como lidar com situações delicadas, onde a dor, a frustração, a decepção, os restos que não foram digeridos estão perpassando as relações, elas não fogem do compromisso com a verdade, tampouco buscam subterfúgios para garantir a convivência: elas descobrem que o caminho mais curto é sempre a verdade e o mais seguro para sempre poder RE-COMEÇAR.


Profª Maria Aparecida Rhein Schirato
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Consultora da Área de Recursos Humanos, mestra em Educação pela Universidade de São Paulo e Filosofia da Educação pela PUC, MARIA APARECIDA RHEIN SCHIRATO além de professora de cursos de especialização Latu Sensu, como o INPG, é Diretora do Centro de Estudos Filosóficos Mounier S/C Ltda - Rhein Schirato Consultores e autora do livro "O Feitiço das Organizações" - S.P., Ed. Atlas 2000, 2a.Edição 2004.

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