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Até onde podemos?
Leia o artigo do prof. Gunther Rudzit
Gunther Rudzit

Uma expressão muito usada em análise de política internacional é a capacidade de influência de um país. Este fator é importante porque, tendo em vista a não existência de um governo mundial que possa mandar nos países, é necessário que estes concordem com certas regras internacionais a fim de se ter uma estabilidade e previsibilidade nas relações internacionais. Assim, para cada interação humana existe uma regulamentação, a isto se dá o nome de governança global.
Contudo, infelizmente, essas regras do jogo são criadas por aqueles  que conseguem influenciar mais. Aqui volta a questão, do que seria influenciar. O jeito mais fácil de entender é da seguinte forma. Alguém conseguir fazer outra pessoa que gosta de laranja tomar um copo de suco dessa fruta, não é influenciar, pois esta faria isso de qualquer forma. Agora, fazer alguém que não goste de açaí tomar um copo de suco desta fruta, oferecendo uma recompensa ou ameaçando uso da força, isso sim é influenciar.
Essas duas dimensões, a econômica e a militar, são as fundamentais para que um governante possa utilizar todos os outros meios a fim de alcançar seus objetivos, dentre eles, influenciar outros governos. Por isso, é fundamental que um governo tenha muita clareza em relação às suas capacidades para influenciar para que não busque objetivos inalcançáveis, o que parecer ser, infelizmente, o caso do Brasil nas suas relações com o Irã.
A República Islâmica do Irã é acusada pelos governos ocidentais de tentar desenvolver uma bomba atômica, o que contraria um acordo internacional chamado Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP em inglês). Os governos europeus vêm negociando junto ao governo iraniano há mais de cinco anos, e, até agora, não conseguiram que Teerã aceite uma supervisão internacional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Nem com sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas (CS/ONU), pela primeira vez com apoio da China e da Rússia, o país dos aiatolás voltou atrás.
Os governos da China e da Rússia tiveram que mudar de postura diante da revelação da existência de mais uma usina atômica que o Irã não havia declarado ter. Essa nova atitude é muito importante porque estes dois países são os dois maiores parceiros econômicos e militares iranianos. Ou seja, se nem eles conseguiram fazer com que as lideranças política e religiosa iranianas voltassem atrás, quem mais conseguirá?  Por tudo isso, é que a questão nuclear iraniana é hoje a mais importante e complicada.
Diante desse quadro, quando o Presidente Lula recebeu o presidente Mahmoud Ahmadinejad, membros do governo afirmaram que o Brasil estava agindo para se tornar um interlocutor entre as partes e com o consentimento do governo americano. Hoje é sabido que não foi bem esta a postura americana, e sim, uma fala de um diplomata desejando boa sorte na tentativa de protagonismo brasileiro nessa questão, não um aval para iniciar negociações em nome das potências ocidentais.
É de interesse nacional o Brasil ser uma grande potência e ser reconhecido como tal, mas esse status não será alcançado desperdiçando oportunidades. Não é oferecendo jogos de futebol com a seleção brasileira que se conseguirá influenciar politicamente. Este tipo de diplomacia foi possível no caso haitiano pela localização e proximidades culturais desse país com o nosso. Tanto que, quando a oferta de um jogo de uma equipe de palestinos e israelenses jogar contra a nossa seleção, a idéia foi recusada.
Tendo em vista que o Brasil foi eleito para mais um mandato de dois anos como membro não permanente no Conselho de Segurança, Brasília terá que tomar decisões difíceis. Europeus e americanos já indicaram que vão levar proposta de imposição de mais sanções econômicas contra o Irã, sendo que neste caso, se abster será percebido como um voto a favor do governo iraniano. Portanto, é imprescindível que o governo brasileiro saiba nossas reais capacidades, interesses e até onde podemos ir com certas posturas internacionais.

Gunther Rudzit é Doutor em Ciência Política pela USP e professor da Sustentare Escola de Negócios.




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