A crise econômica continua sendo o principal foco das atenções, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Agora está mais do que claro que ela chegou ao país não como uma marolinha, também não como um tsunami, mas como uma onda de tamanho razoavelmente grande. Dependendo de como o governo lidar com ela, podemos surfá-la e tirar uma boa nota, como em um campeonato de surf, ou então, levar um caldo e ficar para trás na competição do mundo globalizado.
Apesar dessas notícias econômicas ruins, em meio a tantas outras de causas naturais, o Brasil tem perspectivas muito positivas para voltar a crescer em um período de tempo mais curto que muitos outros países.
Nossa economia não depende de um único produto, como a Rússia, que tem no petróleo o grande motor do seu crescimento, e agora, com o preço dessa commodity em forte e rápida baixa, sofre as conseqüências de uma crise em suas finanças públicas e privadas. Notícias recentes indicaram que ela já perdeu mais de 100 bilhões de dólares das reservas de aproximadamente 600 bilhões que tinha no meio do ano.
Para o Brasil as novas descobertas de petróleo poderão ajudar no crescimento econômico. Estes novos campos dão uma boa perspectiva de investimentos, já que o óleo é de excelente qualidade. Até mesmo a crise pode ter ajudado o desenvolvimento econômico brasileiro, já que não haverá investimentos gigantescos nesta área, o que poderia fazer o país se tornar refém dessa riqueza natural. Um crescimento mais moderado deste setor pode fazer com que vários outros possam se expandir ao mesmo tempo e trazer um equilíbrio de desenvolvimento econômico.
Nossa população não é tão grande quanto os mais de um bilhão de pessoas que China e Índia têm. Contudo, ela tem o tamanho suficiente para torná-la um mercado atrativo, e a pobreza, que é muito grande por aqui, não é tão extremada quanto nestes dois outros países, fato que normalmente a imprensa ocidental não reporta.
Além do mais, temos um diferencial em relação a esses três países, a coesão da nossa população. Apesar de sermos um país de imigrantes, e de extensão territorial continental, nossas diferenças regionais não geram conflitos étnicos ou separatistas.
Podemos perceber isso na preocupação que o governo chinês vem demonstrando com a diminuição do crescimento econômico este ano, e, principalmente, no ano que vem. Economistas chineses já afirmaram que se o crescimento for inferior a 8,0% poderá haver distúrbios sociais muito grandes. A última vez que isso aconteceu foi em 1989, quando a China cresceu ao redor de 3,5% e houve os protestos e o massacre na Praça da Paz Celestial. Pelas notícias mais recentes, esse pesadelo parece assombrar os chineses novamente, devido à rápida desaceleração do crescimento e pelos distúrbios noticiados. Se 1% dos chineses resolverem protestar, teremos ao redor de 13 milhões de pessoas nas ruas.
Temos violência urbana sim, mas não nas dimensões e repercussões políticas e econômicas decorrentes de conflitos étnicos. Na Índia, apesar de ser um país com grande tradição democrática, ataques terroristas com motivações religiosas têm crescido nos últimos anos, como o mais recente em Mumbai.
Por tudo isso, e apesar da crise econômica, o Brasil tem grandes potencialidades. Tanto que o ex-presidente do Federal Reserve (FED, o banco central americano) Paul Volker, que está assessorando o presidente eleito Barack Obama, disse em recente entrevista que considera nosso país um sucesso econômico que realmente mereceu o grau de investimento. Mas aconselha Brasília a ter muita calma, a não se deixar levar por entusiasmo passageiro, mantendo cautela fiscal e orçamentária e seguir na mesma linha política que teve até agora.
Assim, se o governo brasileiro agir como homo sapiens, e não como homo políticus, pensando só na próxima eleição, o Brasil poderá manter investimentos estrangeiros em níveis elevados, voltar a crescer em padrões mais altos, e aí sim se tornar um país que pode competir e influir como uma das grandes potências mundiais.
Gunther Rudzit é Doutor em Ciência Política pela USP e professor do INPG/Sustentare.
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