A atual crise financeira internacional se originou da gigantesca dívida, de gastos excessivos com empréstimos crescentes, desenfreada especulação, sem a devida regulamentação e fiscalização do setor financeiro, nos EUA. Estes fatores contaminaram com rapidez inconcebível todos os mercados financeiros do mundo. Diante deste tsunami econômico, alguns países se prepararam, uns melhor que outros, para enfrentar seus efeitos. Os que adotaram com agilidade uma acertada estratégia de medidas defensivas para proteger suas economias sofrerão um impacto menor.
Reação brasileira a crise
Esta abrangente recessão, que inclui a crise sistêmica do setor bancário mundial e da economia global, reúne todas as condições para se transformar em uma profunda e prolongada depressão mundial. No entanto, a reação brasileira, em um primeiro momento, foi de incredulidade. No auge da nossa euforia, achávamos que o nosso País seria uma ilha de prosperidade em um mundo de recessão. Já outras nações adotaram planos para se protegerem do impacto desta crise. Baixaram suas taxas de juros, desvalorizaram 2 suas moedas, afrouxaram suas taxas de redesconto bancário para gerar maior liquidez, estimularam empréstimos, baixaram seus tributos, devolveram o crédito fiscal para exportação de vários produtos e facilitaram o empreendedorismo, a fim de fazer crescer suas economias.
Enquanto isto, nosso otimismo era tamanho que tomamos caminho inverso. Aumentamos nossas taxas de juros quando a recessão já batia em nossa porta. Mantivemos nosso câmbio desfavorável até que as circunstâncias do mercado desvalorizaram o real e demoramos muito para reduzir nossa taxa exorbitante de juros em dose simbólica.
Tão logo encararmos a vulnerabilidade da nossa economia e ao invés de introduzir algumas medidas paliativas, prepararmos com agilidade um plano estratégico abrangente de medidas defensivas para enfrentar esta seríssima crise global, melhor defesa teremos. Essas medidas devem, forçosamente, incluir a redução do “custo Brasil”, abolir nosso sistema de entraves e simplificar a nossa famigerada burocracia. Nossos juros ainda estão demasiadamente elevados, e devemos modernizar e tornar mais flexível nossa ultrapassada legislação trabalhista de 1943. O PAC pode ser ampliado para gerar maior numero de empregos e atender a nossa necessidade de logística de transportes.
A nossa política ambiental chegou ao ponto de promulgar uma lei valorizando mais um animal, ou pássaro silvestre, do que o 3 homem. Devemos reconhecer que nosso maior bem natural a ser protegido é o ser humano. Para que se possa viver com um mínimo de dignidade humana, necessitamos de emprego para escapar da opressão de sua miséria. Devemos ter uma política que preserve o meio ambiente, mas que também permita nosso crescimento econômico com geração de empregos. As negativas da nossa burocracia e fatores ligadosde meio ambiente, que levaram a Bao Steel chinesa, a desistir de investir US$ 5 bilhões na implantação de uma siderúrgica em uma região pobre do Brasil, frustraram seis anos de tentativas infrutíferas, e causaram gastos de milhões. O empreendimento poderia ter gerado quase 5,000 empregos diretos e indiretos, além de multiplicar seu valor em investimentos indiretos. Deixamos uma região pobre do Brasil continuar na sua pobreza, o que muitas vezes é a causa da deterioração da nossa natureza.
O PAC, a suspensão temporária do IPI para automóveis, a tentativa de desburocratizar as coisas com o reconhecimento de firmas, as tentativas de baixar os juros, isso tudo aponta para um governo que quer defender o País dos efeitos negativos desta crise mundial. Já que temos um presidente com esta visão de prosperidade, querendo até ser o mascate do Brasil para promover nossas exportações, seria possível aproveitar este momento para adotar as medidas estratégicas e abrangentes de defesa econômica.
Seria possível até expandir estas medidas para implantar um modelo econômico de riqueza, que deixaria como seu legado um Brasil 4 fortalecido, próspero e moderno – pronto para realizar nosso “Brazilian Dream”.
Com a ajuda do modelo econômico neoliberal e do “Consenso de Washington”, receitado pelo FMI, implantamos nosso modelo econômico de pobreza. Agora que, diante desta crise global, esta pregação sagrada dos EUA provando sua clara limitação, qual será o nosso novo modelo econômico?
A estratégia chinesa
O governo chinês agilmente adotou um plano de medidas defensivas, que inclui um pacote de estímulo, gigantesco para o tamanho de sua economia, de US$ 585 bilhões. Esses fundos não provêm de empréstimos e nem são de emissão de moeda sem lastro. Tal soma será gasta com rapidez em obras de infra-estrutura pública e principalmente para mudar o hábito poupador do povo chinês para uma vida de maiores gastos. A parte mais importante deste pacote de estímulo se destina a neutralizar os dois principais motivos que prendem os chineses ao hábito de poupar: a criação de um sistema de aposentadoria e de saúde efetiva e acessível deve estimular maiores gastos. Somente a criação de um sistema de saúde mais universal consumirá mais de 850 bilhões de yuans (US$ 130 bilhões) nos próximos três anos.
Em função de sua gigantesca reserva em divisas (mais de US$ 2,3 trilhões, inclusive Hong Kong e Macau), a China tem maior 5 flexibilidade de ação. Uma vez que os bancos chineses não foram afetados por esta crise, a China foi o único país que conseguiu inundar o mercado de empréstimos com sua abundante liquidez. Estenderam empréstimos no montante de 740 bilhões de yuans (US $ 108 bilhões) somente em dezembro de 2008. Em janeiro houve um surto de empréstimos de Rmb$ 1.3 trilhões (US$ 190 bilhões). As vendas a varejo cresceram 18% em dezembro passado; a entrada para compra de imóveis foi reduzida a 20%, após ter sido elevada a 40% quando se pretendeu desaquecer a economia nacional.
Contudo, dezenas de milhares de fábricas chinesas fecharam as portas e mais de uma dezena de milhões de postos de trabalho se perderam. A maioria das indústrias fechadas era de mão-de-obra intensiva com menor nível tecnológico. Embora o governo já tivesse intenção de elevar os níveis de sofisticação tecnológica e de valor agregado da indústria chinesa, a crise e a dispensa de tamanha quantidade de empregos fizeram o governo chinês repensar tal estratégia.
A China terá que passar por uma penosa reformulação para adequar a sua capacidade produtiva à nova realidade de mercado externo e dirigir suas grandes reservas para desenvolver o potencial de seu vasto mercado interno. Feita esta reformulação econômica, a China sairá fortalecida, com maior diversificação e independência econômica. Isto fará com que tenha menor interesse em desviar de suas economias as significativas somas necessárias para sustentar o valor do dólar enfraquecido.
Conforme o artigo “Cash Is King” que escrevi para o “International Finance News”, jornal econômico do Grupo “Renmin Ribao” (Diário do Povo), a China deverá aproveitar a sua significante liquidez para comprar pelo mundo, atualmente a preços de liquidação, empresas, tecnologias, talentos, centros de pesquisas e desenvolvimento e para a criação de novos mercados. O investimento na infra-estrutura criará empregos de curta duração até que sua economia possa se recuperar e facilitará ainda mais a trajetória chinesa para voltar ao crescimento econômico que necessita. É assim que a China se prepara para ser a segunda economia do mundo, pois ultrapassará o PIB japonês em 2010. Assumindo significantes prejuízos nos seus investimentos em papéis do mercado financeiro norteamericano, a poupança chinesa será menos dirigida à compra destes e será mais investida na própria economia doméstica. Francamente, os chineses se cansaram de trabalhar muito, poupar ao extremo e emprestar esta poupança a juros baixos para que o norte am
ericano financie um nível de vida muito superior ao chinês. Os chineses viram sua poupança ser diluída pela desvalorização do dólar e pela queda nas bolsas. Desde que o presidente do FED (Banco Central Americano), Ben Bernanke, saiu-se, em 2002, com a bravata da força do dólar, essa moeda se desvalorizou cerca de 40% em relação às demais.
Séria contratação monetária mundial
Neste momento assiste-se a uma séria contração monetária nos EUA, cuja crise contagiou o mundo com instrumentos financeiros podres e pôs fim à liquidez do próprio país. A desalavancagem generalizada, e a retirada de investimentos feita em outros países pelos fundos e multinacionais norteamericanos e dos países ricos ajudaram a encolher a liquidez mundial. Esta repatriação de recursos reduz sensivelmente o volume de investimentos diretos estrangeiros de risco, tão essenciais as economias em desenvolvimento. A parceria entre os EUA consumista e empréstimos baratos da poupança chinesa possibilitou décadas de prosperidade mundial jamais sonhada. Todavia, desde os anos 90, o dólar tem sido sobrevalorizado, a ponto de ajudar a fomentar um déficit anual interno insustentável nos EUA. Em 2008, esse déficit chegou a cerca de US$ 1.2 trilhões. Antes da crise atual a dívida externa norte americana, já ultrapassava US$ 4 trilhões.
Atualmente, o dólar tem se valorizado como refúgio temporário seguro para o fluxo financeiro mundial, mas a sua continuada desvalorização tem data marcada. Segundo análise da Bloomberg, incorporando dados do Tesouro dos EUA, e da Seguradora Federal de Depósitos (FDIC), a necessidade da economia norte-americana pode chegar a soma estratosférica de US$ 8,5 trilhões: US$ 300 bilhões foram gastos com a "Fannie Mae" e o "Freddie Mac," a seguradora AIG, e a Bear Stearns; US$ 300 bilhões adicionais foram para o Citigroup; US$ 700 bilhões para TARP (Troubled Assets Relief Program, programa de auxilio a ativos problemáticas); US$ 1,4 trilhões provisionados para a FDIC (com depósitos bancários até o limite de US$ 100 mil por depositante); US$ 800 bilhões para compra de dívidas com garantia de bens pela FED; US$ 2.3 trilhões para programas de papéis comerciais do FED, e US$ 2,2 trilhões para empréstimos do FED e outros compromissos governamentais. O governo dos EUA tornou-se o maior detentor mundial de créditos podres.
A fase inicial desta crise “sub prime,” que já causou a ruptura da economia mundial, foi causada pela inadimplência em massa dos financiamentos de imóveis residenciais. Porém, ainda temos pela frente varias ameaças: a dos imóveis comerciais, a dos cartões de credito, a dos financiamentos de automóveis e a de outros créditos pessoais.
A dupla crise financeira mundial
Os financiadores dos EUA - como a China, em primeiro lugar, os produtores de petróleo (na maioria, seus rivais), e o Japão, estão reticentes em investir recursos da ordem de grandeza necessária para reparar a economia americana. Assim, a impressora da casa da moeda norteamericana deve rodar em ritmo acelerado. Essas emissões massivas de papel-moeda farão com que o dólar siga sua trajetória de desvalorização. Contudo, as nações financiadoras se deparam com uma armadilha, pois não podem simplesmente deixar de financiar os EUA, sob o risco de provocar uma corrida contra o dólar e assistir a evaporação de suas poupanças nacionais já investidas.
A rejeição do dólar provocará outra crise financeira global – a do sistema financeiro mundial. O dólar ainda é a moeda da poupança de países e a moeda de transações comerciais e financeiras mundiais. Assim, a necessidade de reformar o ainda vigente acordo de Bretton Woods se torna urgente. As nações ricas, vitoriosas da II Grande Guerra, que criaram o sistema financeiro internacional, estão endividadas. Algumas nações, então pobres, são hoje grandes credoras e estão sendo chamadas para pagar a conta do estrago provocado pelas nações ricas. Elas seriam menos reticentes em abrir seus bolsos profundos se tivessem voz ativa em um Bretton Woods-2. Uma nova moeda de reserva deve ser discutida, para desacoplar o enfraquecido dólar como base de reserva mundial e como padrão global de comércio e operações financeiras.
Essa desvalorização continuada do dólar aumentará o preço das importações americanas, o que pressionará a inflação domestica dos EUA. A fim de atrair investidores, o FED será forçado a aumentar sua taxa de juros. Certamente, o nível de vida dos norte-americanos sofrerá sérias contrações, encolhendo dos atuais 25% do PIB global, controlado por menos de 5% da população do planeta que é dos EUA.
Mais de 70% do PIB dos EUA era composta do consumo facilitado por créditos baratos de fácil acesso. Com a redução deste consumo, certamente o PIB também se encolherá. Qualquer outra nação nesta situação estaria, sob os auspícios do FMI, desvalorizando sua moeda e sendo forçada a implementar medidas de austeridade. Todavia, sendo ainda senhores da moeda de reserva internacional, os EUA podem dar-se ao luxo de continuar gastando, e o resto do mundo continuar a ter de assumir sua conta. Que nota se daria ao crédito soberano norte americano se sua avaliação fosse feita por alguma das empresas americanas de “rating”, que ora estão desacreditadas pelas suas notas dadas aos bancos americanos antes da crise?
O “laissez faire” de Adam Smith, pregado pelos EUA para o mundo como fórmula sagrada para a prosperidade, revela agora suas limitações. A socialização dos prejuízos de “Wall Street” e a estatização total ou parcial de quase todas as entidades financeiras e de indústrias dos EUA chocaram a opinião pública. Muitos americanos temem ver seu país se transformar em uma espécie de Estados Unidos Socialistas da América, enquanto o comportamento da China poderia levá-la a ser chamada de República Popular Capitalista da China.
A emissão acelerada de sua moeda e a política de desvalorizar seu dólar para promover suas exportações, poderá custar aos EUA a facilidade da gerar grandes dívidas. Sem créditos automáticos e ilimitados, atualmente possíveis como senhor da moeda-padrão, os EUA terão que viver conforme seus meios. Até suas aventuras globais poderão ser reduzidas, tendo que respeitar o consenso de seus financiadores.
A intervenção governamental na economia, questão mais chegada às teorias de Keynes e aproximando-se da direção planejada dos "tigres asiáticos" e da China, deve ser vista agora sob nova ótica. O capitalismo, da forma como vinha sendo praticado, deixa de existir, e sinaliza o encaminhamento para o fim da era de soberania da ordem econômica e financeira mundial dominada pelos países do G7 e do mundo unipolar. Com a emergência de nacionalismo econômico, veremos também um retrocesso na globalização financeira.
Parceria Brasil-China
Diante deste quadro mundial, o Brasil e a China são obrigados a procurar alternativas ante a queda dos seus mercados tradicionais -- EUA, União Européia e Japão. Na nova ordem mundial multipolar, a parceria estratégica e comercial entre estes os dois gigantes do Leste e um do Oeste tende a crescer ainda mais. O comércio bilateral dos dois países partiu de meros US$ 1.5 bilhões, em 1999, para nada menos de US$ 36.4 bilhões, em 2008. A China precisa desenvolver novos mercados e deve assegurar-se de fontes dos produtos estratégicos de que necessita para seu crescimento sustentado e para alimentar seu povo. O Brasil, por sua vez, necessita de liquidez, de credito e de investimentos para gerar empregos e reduzir os efeitos desta recessão na economia nacional.
Uma recessão profunda da China pode agravar em muito o delicado estado atual da economia mundial. Mas em função de sua reserva invejável, baixo nível de endividamento, superávit de conta corrente, e principalmente, em sua agilidade em implementar seu gigantesco plano de estímulos, a China deverá atingir sua meta de cre
scer 8% em 2009. Todavia, dificilmente poderá sozinha, salvar o mundo capitalista e, ao mesmo tempo, resolver os problemas de reajuste econômico interno.
Em números absolutos, o PIB chinês representa somente uns 7% da economia mundial. Mesmo considerando a paridade de poder aquisitivo, que multiplica seu PIB por quase quatro, a economia chinesa não pode, por ora, preencher o papel desempenhado pela gigantesca economia norte-americana. Embora em 1997 a China já tenha sa
vado o mundo capitalista durante a crise asiática, o que ela pode fazer é acolchoar a queda dos países que lhe fornecem os produtos estratégicos de que necessita. Como grande exportador destes produtos, o Brasil será certamente beneficiado.
Devemos lembrar que a política do governo do Presidente Hu Jintao, denominada "Sociedade Harmoniosa", de maior justiça social, maior respeito ao meio ambiente e ao consumo de energia, está acelerando a inclusão econômica e social do povo chinês. A cada mês, milhões de chineses são tirados da pobreza e passam a ter renda própria para consumir mais. Independentemente da crise, essas pessoas necessitam melhorar sua alimentação, seu vestuário, 13 sua habitação e ter meios de transporte mais adequados. Nos últimos trinta anos, a China passou por uma explosão de consumo, pois, numa conquista ímpar na mtéria de direitos humanos, ela já tirou da pobreza cerca de 480 milhões de habitantes, os quais passaram a participar dos dividendos decorrentes do sucesso econômico do País.
Nesta crise, alguns países partiram para acusar outras nações por sua aflição econômica e clamam por protecionismo. Acusações e guerras comerciais somente levarão ao agravamento da economia mundial. Convém lembrar que somente uma ação conjunta entre as nações de peso econômico poderá recuperar a economia globalizada.
Charles Tang - membro do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial; fundador do IPEDE - Instituto de Pesquisa e Estudos de Desenvolvimento Econômico; presidente binacional da Câmara de Comércio & Indústria Brasil- China; Bacharel pela Cornell University; Curso de Bacharel em Direito, Universidade Estácio de Sá; Curso de Doutorado, Paris V, Sorbornne; foi Professor Assistente de Desenvolvimento Econômico; Membro do Conselho Internacional do Governo de Wuhan e Conselheiro Econômico do Governo de Jilin City; Implantou leasing no Brasil como executivo do Bank Boston.
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