15 de janeiro de 2010

O déficit de competências profissionais

O déficit de competências profissionais

 Estudos recentes sobre educação e desenvolvimento nos Estados Unidos, citados pelo colunista David Brooks, de The New York Times, divulgados ano passado, mostram que nos períodos em que o progresso na educação ultrapassa o ritmo das mudanças tecnológicas a desigualdade se reduz , pois o mercado de trabalho é tomado por trabalhadores especializados, cujos salários sobem em ritmo menos acelerado.Em momentos em que o progresso educacional fica atrás da transformação tecnológica, a desigualdade se amplia e o poder de barganha entre os diferentes grupos sociais se altera. Estes mesmos estudos observam que não é a globalização ou a imigração ou os computadores que ampliam a desigualdade, mas o déficit de competências.Olhando a nossa realidade, observamos que uma série de indicadores econômicos e sociais nos são hoje favoráveis: no último ano o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 5,4%, chegando a R$ 2,6 trilhões em 2007; o PIB per capita, 4,0%, em relação a 2006, atingindo R$ 13.515;O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) aumentou em relação a 2006, permitindo que o Brasil entrasse (meio na lanterninha) no grupo dos países de alto desenvolvimento humano no ano passado.O IDH reúne, além do PIB per capita ajustado por diferenças de custo de vida, indicadores de saúde (expectativa de vida) e educação (taxa de analfabetismo e de matrículas nos três níveis de ensino); a classe média, segundo economistas da Fundação Getulio Vargas (FGV), vem aumentando, constituindo hoje mais da metade da população nas seis principais regiões metropolitanas do País.Mesmo os dispêndios com ciência e tecnologia têm crescido. Segundo dados do Ministério de Ciência e Tecnologia, houve um aumento nos últimos anos , sendo que a maior porcentagem dos dispêndios (44,5%) é com instituições de ensino superior.Embora esses indicadores delineiem uma situação com cores mais favoráveis, os problemas de desenvolvimento social e econômico e de desigualdades no País persistem, assim como o déficit de competências, nos vários níveis educacionais.A responsabilidade dos educadores, dos formadores de profissionais, que atuarão neste cenário complexo, é grande. No caso da educação superior, o Ministério da Educação (MEC) divulgou o conceito preliminar de curso, classificando 508 dos 2.028 cursos superiores avaliados pelo Exame Nacional de Avaliação do Desempenho de Alunos (Enade) 2007, como de qualidade insuficiente.Embora os dados sejam preliminares e sujeitos ainda à revisão, são dados que revelam uma situação preocupante. No campo específico das escolas de administração, o desafio de formar profissionais que realmente contribuam para a gestão das empresas, dos órgãos públicos, que criem novos negócios, enfim que participem do desenvolvimento do País, não é trivial.Sanar o déficit de competências nesta área requer investimento e vontade.Peter Lorange , diretor do IMD, na Suíça, professor da Wharton Business School, num livro publicado em 2008 ("Thought leadership meets business") comenta que uma escola de negócios para ser bem-sucedida na competição ferrenha, que hoje permeia o ambiente internacional, precisa ter "um grupo de professores do mais alto calibre, alunos com alta capacidade intelectual, cultura e experiência , combinar a pesquisa com o ensino que realmente criem valor para os estudantes e para a sociedade e ter uma perspectiva global".É um modelo ambicioso, que poucas escolas podem almejar. No âmbito da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Administração (Anpad) , que congrega cerca de 80 programas, são muitas instituições lutando para alcançar este padrão de excelência.Olhando, no entanto, o conjunto das instituições brasileiras não há por que todas não possam perseguir o ideal da qualidade na formação de bons profissionais.  Estas instituições, ajudando a sanar o déficit de competências profissionais, podem promover a diminuição das desigualdades do País.kicker: Investir para sanar deficiências educacionais reduz as desigualdades

Maria Tereza Leme Fleury, diretora da Easp/FGV e professora da FEA/USP. 

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