São bem conhecidos aqueles cartazes da Primeira Grande Guerra em que Tio Sam, usando uma cartola e com olhar severo, aponta o dedo para o observador e diz: "Eu quero você". Com a profissionalização das forças armadas, já não se buscam voluntários para lutar nas guerras do Iraque e do Afeganistão, mas, agora, se quiser recuperar o dinamismo econômico do país, Obama precisa convocar para a batalha, com igual urgência, o consumidor americano.Durante muitas décadas, enquanto a economia americana desempenhava o papel de locomotiva do crescimento mundial, o foguista que alimentava as fornalhas era exatamente aquele consumidor, então todo-poderoso. Estimulado a viver acima de suas posses, ele não se incomodou de ver a poupança, bem superior a 10% da renda disponível na década de 70, entrar no vermelho nos últimos tempos.Com o estouro das várias bolhas criadas pela irresponsabilidade das autoridades e dos operadores do sistema financeiro, aquele impávido consumidor se viu desamparado da noite para o dia. O desastre dos subprime dissolveu velozmente o efeito-riqueza provocado pela valorização anterior das casas, o qual vinha sustentando uma explosão de compras suntuárias e de especulação imobiliária. O fato de que, em muitos mercados, continua a cair o valor das residências e elas continuam a ser retomadas pelos bancos mostra que o esvaziamento patrimonial perdura, reduzindo em centenas de bilhões de dólares o poder aquisitivo das famílias. Paralelamente, os bancos cortaram de forma radical suas linhas de crédito, na prática suspendendo os empréstimos para pessoas físicas já endividadas.Com os compradores arredios, as empresas não se sentem confiantes em realizar novos investimentos e nem mesmo vêm mantendo seus quadros de pessoal. Assim, a taxa de desemprego já ultrapassou a terrível cifra de 10%, o que significa que cerca de 16 milhões de americanos estão hoje fora do mercado de trabalho (embora, levando-se em conta o subemprego, o número de pessoas afetadas pela perda ou redução de salário seja de fato bem maior). Mas essa taxa deve crescer ainda mais nos próximos meses e dificilmente voltará a um dígito no ano que vem..Diante desse quadro, é enganoso o avanço de 3,5% do PIB americano no terceiro trimestre de 2009, já que tal resultado foi obtido em grande parte graças aos programas governamentais de estímulo à compra da primeira casa e à troca de automóveis, não passando, portanto, de saques contra o futuro. Quando perguntadas, as 5 mil famílias que compõem a amostra da pesquisa sobre a confiança do consumidor responderam enfaticamente: o índice da situação atual, no nível de 20,7 (1985 = 100), é o mais baixo em 26 anos.Nessas condições, a questão que hoje se coloca para os economistas é saber se, como em recessões anteriores, o consumidor em breve voltará às compras ou se, apavorado com o grau de alavancagem a que foi conduzido, alterará seus hábitos de forma permanente. Não se precisa ter um diploma para saber que nem mesmo a maior potência econômica do planeta pode viver eternamente em regime deficitário, acumulando dívidas em todos os escalões da sociedade e do governo. Por isso, tudo indica ser inevitável uma mudança radical e duradoura nos padrões de comportamento das famílias americanas - a qual terá impactos profundos em todo o mundo, a começar pelos países superavitários, como a China, que bancaram a farra consumista dos Estados Unidos em troca da criação de empregos modernos para centenas de milhões de cidadãos.O paradoxo dramático de Obama é que ele reconhece a necessidade de que o povo americano discipline seus gastos, mas, sem a volta do consumidor às lojas, a maior profundidade da crise poderá ceifar seu destino político. Será que ele vai se fantasiar de Tio Sam?
Fonte Revista Amanhã - http://www.amanha.com.br/NoticiaDetalhe.aspx?NoticiaID=a87a747d-078a-4aef-be7e-22ea11da0256');
O paradoxo de Obama
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