13 de junho de 2011

Impressões de uma viagem aos Estados Unidos

Impressões de uma viagem aos Estados Unidos

Gostaria de compartilhar algumas impressões que vivenciei neste último mês de maio. Fui convidado pelo Departamento de Estado a fazer uma visita técnica aos Estados Unidos, percorrer órgãos públicos, centros de pesquisa, ONGs e Universidades, com o intuito de contribuir para a melhor compreensão tanto da formulação da política externa norte americana, quanto da questão da não proliferação nuclear, como também das relações entre nossos dois países. Foi realmente uma experiência fabulosa, da qual gostaria de destacar alguns pontos.
Um grande aprendizado foi o papel que o Senado tem em política externa. Apesar de não ter prerrogativa constitucional de formular políticas neste setor, este pode aprovar leis que interfiram diretamente nesta área. Este foi o caso quando o Comitê de Relações Exteriores ameaçou aprovar sanções unilaterais caso o governo Obama aceitasse algum acordo com o Irã que não previsse o fim do enriquecimento de urânio naquele país. Se essa ação fosse implementada, a Casa Branca perderia o apoio de China e Rússia às novas sanções multilaterais que seriam aprovadas no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Além disso, foi justamente com um brasileiro professor da National Defense Univesity que entendi definitivamente o porque da restrição em deixar o Irã enriquecer o urânio a 20%. O investimento necessário em equipamento para chegar a este ponto é muito alto, mas, para “dar o pulo” dessa pureza para os 95% necessários para uma bomba atômica, o custo passa a ser marginal, ou seja, uma questão de um pouco mais de tempo e investimento, e um país passa do urânio de uso civil para uso militar. Com um grande detalhe, em todas as outras três rodadas de sanções aprovadas unanimemente no Conselho de Segurança, estava previsto que os iranianos teriam que parar o enriquecimento até que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) comprovasse o uso civil do programa nuclear iraniano.
O motivo de relatar esses dados técnicos e políticos se deve à ação brasileira em aceitar o famoso acordo de Teerã, no qual tanto o Brasil quanto a Turquia apoiaram a decisão iraniana em continuar a enriquecer urânio a 20%. Aqui fica a questão do porquê desta atitude, uma vez que existe essa realidade técnica preocupante, que levou ao Conselho de Segurança a pedir o contrário por três vezes.
Outro ponto que chamou muita a atenção foi o respeito americano pelo nosso programa de combustível renovável, mais conhecido como etanol. Muitos americanos disseram que o Brasil fez o que eles deveriam ter feito, ou seja, após o primeiro choque do petróleo em 1973, desenvolver esse combustível alternativo. E agora, com o aquecimento global (sim há americanos que acreditam nele), o etanol é a fonte ideal para combatê-lo, e eles vêm o programa brasileiro como o mais avançado e eles necessitando correr atrás do tempo perdido.
Por outro lado, há várias propagandas na televisão contra a aproximação do presidente Obama com o Brasil, a fim de torná-los um grande comprador do nosso petróleo do pré-sal. O argumento é que os Estados Unidos não deveriam continuar a importar petróleo e sim passar a extraí-lo de regiões americanas que hoje estão preservadas desse tipo de atividade. Ou seja, que diz que há ameaça deles virem “tomar” o pré-sal, ou está mal informado ou tem más intenções ao dizer isso.
Na volta, a primeira notícia que vi nos jornais foi que a falta de investimentos colocava em risco o futuro do etanol no Brasil. Isso depois de ter que importar este produto, além de gasolina, dos Estados Unidos! Ou seja, a maior ameaça ao nosso futuro, não é dos americanos, e sim a nossa capacidade de nos planejarmos para o futuro. Uma das nossas maiores vantagens competitivas em uma economia de baixo carbono está em risco por falta de políticas governamentais. A Petrobras está construindo grandes refinarias para a exportação de gasolina para os mercados americanos e europeu, quando estes já estão buscando alternativas para esse combustível. Nós precisamos tomar um choque de gestão administrativa pública, ou então, continuaremos a ser o país do futuro que nunca chega.
Gunther Rudzit é doutor em Ciências Políticas pela USP, mestre pela Georgetown University de Washington (EUA). Ex-assessor do Ministério da Defesa. Professor de Relações Internaciais das Faculdades Integradas Rio Branco e coordenador dos cursos de graduação e pós-graduação de Relações Internacionais da FAAP.

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