O assunto que dominou o noticiário nas últimas semanas foi a dívida do governo norte americano, e isto não se deu somente aqui, foi manchete no mundo todo. Isto se deu porque boa parte da poupança mundial está em dólares ou em títulos do governo americano, ou seja, o mundo financia o déficit daquele país e, conseqüentemente, o que acontece com essa moeda acaba afetando o mundo todo.Este fato é uma vantagem muito grande para os americanos, principalmente seu governo, o que levou a alguns políticos republicanos, já em maio deste ano, a dizer que seu país não deveria elevar o teto da dívida, e, por conseguinte, não pagar os juros nem o principal dela. Sua lógica de argumentação foi bem simples, que o mundo dependia deles, e, portanto, não haveria maiores problemas. Tal pensamento, apesar de ser um grande absurdo, tem muito respaldo entre os mais conservadores daquele país, conta até com alguns grupos intelectuais que defendem esta e outras visões.Tais grupos são os chamados Think Tanks, que aqui são conhecidos como centros de pesquisa. Normalmente estes são financiados tanto por contribuições anuais daqueles que concordam com os mesmos princípios, ou então pelo chamado endoument, que é um fundo de investimento criado por algum milionário, que gera recursos que financiam estas instituições. Este último tipo de instituto passou a ser muito comum no final do século XIX e início do século XX, período em que os Estados Unidos passaram a ser a maior economia mundial e a ter interesses cada vez mais globais.Assim, os grandes empresários passaram a se preocupar com o futuro do país, e deixaram parte de suas fortunas para esses institutos que, até hoje, desenvolvem pesquisas e debates em diversos assuntos, como política externa, segurança internacional, economia mundial, e quais os interesses americanos relacionados a esses temas. Conseqüentemente, estas organizações procuram influenciar a tomada de decisão do governo, e isto não é visto como lobby, que tem uma percepção negativa aqui no Brasil. Para eles, isso faz parte do processo democrático, uma vez que o governo deve defender os interesses da nação, e todas essas atividades tornam o processo mais transparente.Em uma sociedade dividia, o resultado é o impasse em assuntos importantes, como a organização econômica ou política de um país. Assim, o que se percebe é que esta é a nova realidade que não se imaginava que os americanos chegariam, com visões muito polarizadas de qual o papel do Estado na economia, discussão fundamentada pelos think tanks de cada partido, tanto o Republicano quanto o Democrata.Por outro lado, nós aqui no Brasil, que conseguimos superar a divisão que existia em como organizar nosso País, tanto do ponto de vista político, quanto do econômico, precisamos dar mais passos a frente sobre quais são nossos interesses nacionais.Com as três últimas eleições presidenciais, os brasileiros demonstraram que apóiam a democracia e alternância de poder ao invés do socialismo. Assim como também explicitou que o capitalismo é o melhor caminho para tirar boa parte da sociedade da pobreza ao invés do comunismo.Contudo, faltam maiores discussões sobre o futuro e a inserção internacional do Brasil. É até compreensível termos perdido essa capacidade de planejamento, uma vez que três décadas de inflação alta, sendo uma de hiperinflação, transformaram todos os problemas de longo prazo em menor importância diante da sobrevivência do dia a dia. Entretanto essa fase já passou, já estamos repensando o futuro em questão de década, fazendo necessário pensar como nos inseriremos no mundo nesse período.Cabe a todos na sociedade esse exercício, mas aos empresários uma maior parte, uma vez que é dela que advém sua riqueza, contribuindo para o pensamento estratégico brasileiro, uma vez que não é mais possível isolar o Brasil da globalização. Sem isso, continuaremos a mercê no imediatismo e causas próprias vindas de Brasília.
Gunther Rudzit, professor da Sustentare Escola de Negócios é doutor em Ciências Políticas pela USP, mestre pela Georgetown University de Washington (EUA). Ex-assessor do Ministério da Defesa. Professor de Relações Internaciais das Faculdades Integradas Rio Branco e coordenador dos cursos de graduação e pós-graduação de Relações Internacionais da FAAP.
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