Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira construíram, em pouco mais de quatro décadas, o maior império da história do capitalismo brasileiro e ganharam uma projeção sem precedentes no cenário mundial. Hoje eles são donos da AB InBev (a maior cervejaria do mundo, controladora da AmBev), da rede de fast food Burger King e da fabricante de alimentos Heinz, além da Lojas Americanas.
Juntos, os três empresários acumulam uma fortuna estimada em US$ 35 bilhões. Lemann ocupa o posto de homem mais rico do Brasil. Os bastidores dessa história sem igual na economia brasileira são contados pela primeira vez no livro Sonho Grande (246 páginas, Editora Sextante). Lançada em abril, a obra já soma 100 000 exemplares vendidos e está no topo das listas de livros de não ficção do país.
A jornalista Cristiane Correa produziu um livro-reportagem independente em que revela a trajetória do trio desde a fundação do banco Garantia, em 1971, por Jorge Paulo Lemann. Inspirado por companhias americanas como a varejista Walmart e o banco Goldman Sachs, Lemann trouxe para o Brasil conceitos até então praticamente desconhecidos do empresariado brasileiro, como meritocracia e a possibilidade de os melhores funcionários se tornarem donos do negócio em que trabalham. Telles e Sicupira, que foram contratados pelo Garantia pouco após sua fundação, são o melhor retrato dessa cultura: ambos ingressaram no banco muito jovens e conquistaram espaço na instituição até se tornarem sócios de Lemann.
Dias 26 e 27 de julho, Cristiane Correa, autora do livro, esteve em Joinville e participou da aula magna na Sustentare Escola de Negócios. Durante o evento, ela contou um pouco sobre a trajetória dos três empreendedores e das dificuldades em fazer o livro.
Ao longo de mais de um ano, Cristiane fez quase 100 entrevistas com pessoas próximas a Lemann, Telles e Sicupira, para entender como pensam e operam esses empresários. Dessa lista fazem parte desde antigos sócios do banco Garantia a personalidades que se tornaram mais próximas do trio nos últimos anos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o americano Warren Buffet. O megainvestidor, que se associou aos brasileiros para a compra da Heinz, contou qual foi sua impressão quando conheceu Lemann, no final dos anos 90, no conselho de administração da Gillette, do qual ambos participavam: “Eu não sabia nada sobre ele. Zero. Nunca tinha ouvido falar. Nos encontrávamos a cada dois ou três meses, e demorou algum tempo até que realmente nos conhecêssemos. O que eu notei desde o começo é que ele dizia coisas que faziam sentido. Não fingia saber de coisas que não sabia, não falava só para escutar a própria voz. Tinha uma tremenda visão de negócios.”
Na década de 80, os banqueiros compraram a Lojas Americanas e a Brahma. Nessas companhias, a obsessão por controle de custo e a aversão por hierarquias rígidas ficou ainda mais clara. As paredes dos escritórios dos executivos foram literalmente derrubadas para que todos dividissem um mesmo ambiente. Restaurantes exclusivos para a diretoria acabaram. Nos estacionamentos das empresas, ninguém mais tinha vagas “especiais” – quem chegava primeiro, independente do cargo, podia pegar os melhores lugares. Tanto no banco quanto nas empresas em que eles investiram, a competição interna era estimulada e nem todos os funcionários suportaram a pressão – o livro traz depoimentos de gente que não conseguiu trabalhar mais que semana no Garantia.
Sonho Grande conta não apenas os detalhes das grandes tacadas do trio, como a compra da Antarctica (formando a AmBev) e a da Anheuser-Busch, mas também seus tropeços. O maior baque de suas carreiras – a venda do banco Garantia, em 1998, para o então Credit Suisse First Boston – é narrado em detalhes. Para um grupo de empresários tão preocupado em garantir a perpetuação de seus negócios, se desfazer da instituição financeira foi um tremendo fracasso. Na avaliação da autora, a mudança no cenário econômico mundial não foi a razão principal para a venda da instituição. “O Garantia desapareceu porque se deslumbrou com o próprio sucesso. Porque seus principais sócios se afastaram do negócio e deixaram o barco correr solto. Porque boa parte da nova geração estava mais interessada em engordar seu patrimônio pessoal do que em perpetuar a instituição”, explica Cristiane.
Sobre a autora
Cristiane Correa é jornalista e se especializou nas áreas de Negócios e Gestão. Trabalhou por quase 12 anos na revista Exame, onde foi editora-executiva. Sonho grande é seu primeiro livro.
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