No início do mês desetembro passado foram divulgadas as estatísticas referentes aoProduto Interno Bruto (PIB), relativo ao segundo trimestre de 2009,que apresentou uma alta de 1,9% com relação ao trimestre anterior.Os maiores responsáveis por essa alta foram o consumo das famílias,com um crescimento de 2,1% no mesmo período, acompanhado pelaatividade industrial, enquanto o setor de serviços cresceu 1,2%. Poroutro lado, o consumo do governo e a agropecuária apresentaram nívelde crescimento negativo em 0,1%, enquanto o volume de investimentosse manteve inalterado.
O crescimento noconsumo das famílias não é surpresa, pois desde o início da criseem setembro de 2008, o comportamento do consumidor brasileiro mostrouum comportamento inusitado, mas psicologicamente compreensível. Oreceio das conseqüências que poderiam advir da crise,principalmente no que diz respeito à empregabilidade, fez com que asfamílias adiassem a compra de bens de consumo durável de valoragregado mais alto. Para compensar esta renúncia intertemporal aoconsumo, as famílias se deixaram seduzir pelo consumo de produtos devalor agregado mais baixo, como alimentos e vestuários.
Este comportamentomanteve a atividade produtiva de alguns setores em funcionamento,minimizando de certa maneira os efeitos da propalada crise. À medidaque os meses foram passando e com a ajuda do governo, que reduziu oumesmo zerou a alíquota do imposto sobre produtos industrializados(IPI) como automóveis e produtos de linha branca, acabaramestimulando as famílias a retornarem ao mercado de consumo deprodutos de valores agregados mais altos. E sem dúvida receberam aajuda do sistema bancário que, paulatinamente, começou a aumentar ovolume de recursos para as operações de empréstimos efinanciamentos, apesar da pressão imposta pelo governo por umaredução na taxa de juros bancária.
O setor produtivo, porsua vez, vinha aumentando sua produção no período pré-crisechegando próximo à sua capacidade instalada. Mercado consumidoraltamente aquecido, grandes encomendas junto aos fornecedores,conseqüentemente capital de giro totalmente comprometido com aprodução. Irrompe a crise. A indústria se vê com altos estoquesde produtos acabados e em processo, assim como de matérias-primas.Numa medida de curto prazo para ajustar o fluxo de caixa, reduçãono volume de contratações. Prenúncio do aumento do desemprego,portanto crise aportando na economia brasileira.
Mas, como foi ditoanteriormente, à medida que o consumidor apenas muda o seu perfil deconsumo, mantendo determinados setores em funcionamento, e a políticade redução da carga tributária, permitiu que em pouco tempo aindústria se adequasse à nova realidade, retomando o seu ritmo deprodução acompanhando o mercado consumidor e, principalmente,voltando a empregar, o que permite a manutenção da renda dasociedade e sua capacidade de consumir.
No momento deapreensão, quando o consumidor com medo da crise refaz suas contas,os primeiros itens que são excluídos do orçamento são ossupérfluos como serviços relacionados à higiene pessoal, lazer emesmo serviços importantes como saúde. Talvez aí esteja aexplicação para o baixo desempenho do setor de serviços. Mesmo emse considerando outros tipos de serviços como o bancário, cujaatividade de arrefeceu nos primeiros meses da crise, juntamente com osetor securitário e previdenciário.
Com a queda daatividade econômica, em função da crise, é inevitável, o governopassou a arrecadar menos, associado aos benefícios fiscaispraticados por ele, na tentativa de amenizar os efeitos perversos dacrise. Isso exigiu das autoridades econômicas uma atuação fortesobre os gastos governamentais, para não comprometer ainda mais odéficit fiscal. Deixou inclusive de realizar investimentos públicos,comprometendo ainda mais as metas estabelecidas para o Programa deAceleração do Crescimento (PAC) para 2010.
A queda na atividadeeconômica nos países industrializados reduziu drasticamente ademanda por commodities minerais e agrícolas, o que acabou afetandoo setor exportador brasileiro, que têm nestes produtos a maiorrepresentatividade, superando os produtos manufaturados.
Apresentados estesfatos, surge uma preocupação mais crítica na análise daconjuntura econômica brasileira. Apesar do baixo desempenho dealguns setores, tudo indica que economia brasileira efetivamentepartirá na frente de muitos países maiores em produção e que sãotidos como os mais desenvolvidos. Mas até quando esse crescimentoterá sustentação? Mesmo que a economia mundial volte a crescer aosníveis do período pré-crise, será que o setor produtivobrasileiro conseguirá acompanhar esse novo ritmo de crescimento?
OttoNogami, Economista,professor do INSPER Instituto de Ensino e Pesquisa e da SustentareEscola de Negócios/ Joinville
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