A poucos dias do Natal, enquanto as tentativas de um acordo global sobre clima patinavam em Estocolmo, a Confederação Nacional da Indústria desembrulhava alguns números igualmente frustrantes sobre o que as empresas brasileiras pensam a respeito do assunto. Simplesmente porque poucas pensam: apenas 33%, para ser exato. As demais, e se está falando de dois terços das indústrias, admitem que conhecem pouco o tema das mudanças climáticas e as implicações sobre seus negócios. Uma pena, porque na mesma pesquisa fica evidente que as empresas mais informadas são aquelas com maiores chances de sair da retranca e jogar para ganhar. "O que se percebe é que quanto mais a empresa conhece o tema das mudanças climáticas, mais ela tem capacidade de identificar oportunidades e não apenas custo", diz a AMANHÃ, na entrevista a seguir, o economista José Augusto Coelho Fernandes, diretor executivo da CNI e presidente da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior. Apesar deste quadro, Fernandes, um economista formado pela PUC-RJ, está longe de desanimar. Para ele, se a pesquisa fosse feita um ano atrás, os resultados seriam ainda mais preocupantes. "A COP-15 colocou este tema no radar das empresas", aposta.
Mesmo entre grandes empresas, a expressiva maioria (63%) admite que não conhece bem o tema da mudança climática. Os grandes industriais brasileiros estão alienados? Ou acham que há demasiado alarmismo em torno deste assunto?
O que pode estar por trás desse número é o fato de que o tema da mudança climática ainda não está associado, no Brasil, a políticas. Por isso, as empresas, especialmente aquelas menos conectadas com o comércio internacional, tem uma baixa percepção sobre esta questão. Mas se observarmos as companhias que têm maior presença no mercado internacional, e que estão acompanhando a evolução das exigências de seus compradores, as restrições legais e políticas nos países desenvolvidos e as reações dos consumidores, veremos que este conjunto de empresas tem uma ação mais proativa.
Mas o Brasil tem uma baixa taxa de inserção no comércio mundial. Logo, esta postura que caracteriza a ação de empresas internacionais tenderá a chegar a passos muito lentos no Brasil, não?
Ao longo deste ano houve uma mudança bastante expressiva, e para melhor. Se esta mesma pesquisa da CNI fosse realizada um ano atrás, os resultados seriam provavelmente até um pouco mais preocupantes. Um ano atrás, fizemos um primeiro esforço para consolidar nossa posição na Cop-15, ouvindo os vários setores da indústria. E o que observamos, de fevereiro em diante, e principalmente a partir de junho, aumentou bastante o engajamento do setor privado em relação a este tema. Foi quando surgiu a carta da Vale, e iniciativas de outras empresas, especialmente aquelas ligadas ao agronegócio. Só esses movimentos já compõem uma mudança extremamente importante do setor privado diante das mudanças climáticas. E é a isso que eu credito a forte participação das empresas brasileiras em Copenhague, com mais de 70 representantes na conferência. A preocupação vai crescer expressivamente daqui por diante. Mas é natural que esse fenômeno seja mais forte em alguns setores mais afetados pela mudança climática, como o de empresas mais integradas ao comércio internacional e o de grandes emissores de gases de efeito estufa. Aí se incluem segmentos de siderurgia, química, papel e celulose, entre tantos outros. No Brasil e no mundo, esses são os setores em que a agenda do clima é mais importante para a definição de estratégias.
Chama a atenção, na pesquisa da CNI, o baixo índice de conhecimento sobre mudanças climáticas em setores mais expostos a este desafio, como o de energia.
Talvez porque, no Brasil, a base de energia é renovável em grande medida. Imagina que quem respondeu nosso questionário tenha sido... uma companhia hidrelétrica. Para ele, a questão do clima não está no topo de sua agenda. Claro, poderá estar, a partir de agora, até como um greenwashing, isto é, fazer propaganda sobre o quão renovável é a energia que a companhia gera. Mas do ponto de vista estratégico, neste momento, mudança climática é a décima prioridade...
O fato de o industrial brasileiro perceber mais o custo gerado pelas mudanças climáticas do que as oportunidades é um sinal de miopia? Ou indica passividade e disposição para fazer o mínimo, e mesmo assim apenas quando a lei exigir?
Temos acompanhado pesquisas semelhantes à nossa pelo mundo. Certamente, um dos países em que o tema da mudança climática está mais presente - na mídia, nas ações de governo, nas iniciativas das empresas - é a Inglaterra. E veja: até mesmo na Inglaterra o grau de conhecimento das empresas sobre o tema das mudanças climáticas não é tão elevado. A McKinsey fez há cerca de dois anos uma pesquisa com CEOs de grandes empresas internacionais para verificar como as estratégias das empresas incorporavam essa questão, e o resultado, o nível de percepções, foi baixo. Nossa pesquisa mostra que, para 47% das indústrias, mudança climática representa mais custo que oportunidade. Mas 38% veem este tema como custo e oportunidade, equillibradamente. E 15% encaram mais como oportunidade do que como custo. Então a situação está equilibrada... O que se percebe, também, é que quanto mais a empresa conhece o tema, mais ela tem capacidade de identificar oportunidades. A pesquisa deixa isso muito claro. Nesse sentido, a Cop-15 foi muito importante. A conferência coloca esta questão no radar das empresas.
Construir a economia de baixo carbono implica custos consideráveis. Como financiá-los? Qual o papel do governo? E no mundo, esta conta deve ser bancada pelos países ricos? De que modo?
Estabelecer um novo padrão de produção e tecnologia gera, em si, um conjunto de oportunidades, e naturalmente atrai investidores. Há oportunidades em que a taxa de retorno já é clara. E haverá outras oportunidades que exigirão um seed money, para que essa taxa de retorno seja capaz de estimular uma decisão empresarial - especialmente naqueles investimentos onde exista maior risco. Vários países têm dado algum tipo de suporte para esses investimentos - principalmente no capítulo de novas fontes energéticas. Em síntese, eu diria que há um bloco de investimentos que o mercado, mesmo, irá provocar. Por exemplo, se há muitas empresas apostando em energia solar, o empreendedor pode perceber uma oportunidade. Ele percebe uma determinada taxa de retorno, vai lá no mercado financeiro e busca seu crédito para investir. A mudança para a economia de baixo carbono já oferece, hoje, para determinadas tecnologias mais maduras, um conjunto de oportunidades de investimento. Só que o esforço requerido envolve a introdução de tecnologias caras, para as quais eu não tenho, muito claro, qual é a taxa de retorno. E então eu começo a ter a necessidade de apoios governamentais, determinados incentivos, subsídios, seja lá o que for. A própria energia eólica é fortemente subsidiada. E há um debate, lá, sobre se tanto incentivo vale a pena.
No Brasil, especificamente, que oportunidades são mais evidentes?
Aqui, nós vemos oportunidades de financiamento privado, como o MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo), que viabiliza um mercado de redução de emissões. Outro exemplo é o REDD (redução de emissões de desmatamento e degradação), que foi discutido na Cop-15. Esses seriam instrumentos poderosos. E existe uma outra fonte de recursos, que é a dos financiamentos públicos. São os fundos de apoio à mitigação das mudanças climáticas, alguns deles vinculados ao Banco Mundial. A nossa expectativa, em um país emergente como o Brasil, é que tenhamos maior mobilização d
e recursos financeiros que não venham apenas do mercado e que possam ser aplicados em ações de mitigação. O foco brasileiro é precisamente a mitigação.
Por falar em oportunidades, como fica a criação do Mercado Brasileiro de Reduçao de Emissões em um ano em que o Congresso funcionará à meia força?
O MDL, mercado de redução de emissões, está operando. Nosso desafio é reduzir a burocracia e os custos de transação associados a ela. Hoje, dificilmente você consegue montar um projeto de redução de emissões por menos de US$ 200 mil. Existem várias despesas - de construção de projetos, de estudos de viabilidade, etc. - que hoje tornam praticamente impossível a uma empresa pequena ou média elaborar um projeto dessa natureza. Mesmo para uma pequena prefeitura que tenha um determinado programa de tratamento de lixo... é inviável. O REDD, tão discutido em Copenhague, talvez seja a a grande novidade em termos de mobilização de recursos públicos e privados.
A indústria brasileira concorda com as posições que o governo brasileiro levou à Cop-15?
Em geral, sim. Há um forte consenso em cima de alguns princípios básicos. O primeiro preceito básico com o qual o governo e a indústria concordam é que existe entre as nações uma responsabilidade comum pelas mudanças climáticas - mas diferenciada. Nós temos responsabilidades, sim, mas entendemos que ela seja diferente, menor que a dos países desenvolvidos. Mas isso não significa que a gente deva ter uma atitude de inação. Ao contrário: temos de ir para a mesa e apresentar propostas. E, no caso brasileiro, na medida em que a gente apresente um plano crível, nos habilitamos a receber recursos. Houve, na Cop-15, uma discussão a respeito de como se faz isso, como se monitora e verifica os resultados desses programas, um debate no qual a China atuou bastante. Os países tendem a utilizar sua soberania como um argumento para limitar esses compromissos. Só que eu acho que nós temos, no cenário internacional, "n" exemplos de como se resolve isso. A própria atuação da OMC, no comércio internacional, é um desses exemplos. Como os chamados treade reviews, a OMC exerce um certo monitoramento e alguma pressão sobre políticas que alguns países adotam em desacordo com as normas do comércio internacional. E funciona bem. Portanto, não me parece tão difícil chegar a um acordo sobre como se monitora a aplicação das metas de redução de emissões por parte dos diferentes países.
Quando o assunto é negociação de metas de redução de emissões, dá para falar em bloco de emergentes? Há uniformidade de interesses entre eles?
Há um conjunto de princípios que une essas nações. Um exemplo eu já mencionei: o reconhecimento de que a responsabilidade é comum, mas é diferenciada entre as nações. Os países unidos no G-77 estão sintonizados com esse princípio. Agora, quando entramos em detalhes, começa a haver divergências mais sérias. Analisemos o conceito de BRICS (Brasil, Rússia, Índia e China). Para a área de energia, esse conceito é meio non sense, na medida em que Rússia, Índia e China têm matriz energética muito baseada no carvão, enquanto, no Brasil, quase 50% da energia é renovável. Isso faz uma brutal diferença quando você entra no detalhe das negociações sobre metas de redução. Neste tópico, os interesses deixam de ser comuns.
O ingresso do Brasil na exploração pesada do petróleo de pré-sal não complicará o atendimento de metas mais ousadas de redução das emissões de gases de efeito estufa?
A fonte principal de emissões, no Brasil, é o desmatamento. É esta a frente que o Brasil tem de atacar. Na área do petróleo, existe toda uma discussão sobre captura de carbono... É uma tecnologia bastante cara. Mas certamente em um horizonte de 30 anos deve se tornar mais viável, e devemos lembrar que só deveremos começar a ter uma operação comercial de pré-sal dentro de dez anos. Eu acredito que, neste prazo, uma série de tecnologias de captura de carbono deverão ser criadas, para que seja possível reduzir a emissão.
Fonte Revista Amanhã - http://www.amanha.com.br/NoticiaDetalhe.aspx?NoticiaID=4bdc2149-0291-4de8-8722-3cec3a707b89
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