10 de julho de 2008

Gestão de risco e os valores da empresa

Gestão de risco e os valores da empresa

O assunto pode parecer óbvio, pois muitos dirão que os valores são de todos que trabalham na companhia, mas e quanto aos acionistas? Logo se vê, portanto, que não é tão óbvio assim!
Vamos imaginar que você acabou de montar uma pequena empresa; pergunto-lhe: quais serão os valores dessa empresa? Podemos dizer que serão praticamente os seus valores. Então uma Companhia Aberta deveria ter seus valores definidos por seus acionistas, valores estes definidos em uma Assembléia Geral e, posteriormente, disseminados para todos os demais públicos estratégicos da empresa.

Como já citado no artigo desta coluna na edição nº 97, a Perdigão fez um trabalho no ano passado para redefinir sua missão e seus valores e definir a visão 2020. Pelas apresentações públicas dos fundos de pensão, é possível imaginar a profundidade do trabalho dos acionistas, não só dos controladores, para definição dos valores da Perdigão, mas também da WEG, por exemplo, empresa que tem fortes valores alicerçados nos fundadores da empresa, dois dos quais participam da Perdigão: um no Conselho Fiscal e outro no Conselho de Administração, Recentemente em algumas empresas familiares, os acionistas iniciaram um movimento interessante de profissionalização; antes de a família sair da gestão, contratam-se primeiramente os executivos de postos-chave, como finanças, marketing etc. e depois o Chief Executive Officer (CEO); ou seja, a contratação de executivos para diversas áreas veio antes da contratação do CEO.
Quando o CEO assume sua função, toda a equipe de executivos já está formada e provavelmente já está no processo de aculturamento com os valores definidos pelos acionistas. Nesta posição, o CEO terá de mostrar que é realmente um líder, afinal ele não poderá trazer (pelo menos de imediato) a equipe da empresa anterior que presidia, tornando difíceis os valores, a cultura, o posicionamento, a missão etc. não terem a “cara” dos acionistas. Talvez pareça óbvio, mas será que sempre foi assim?

Será que os valores presentes no dia-a-dia da Enron eram dos acionistas ou dos seus executivos? O risco de a empresa que estrutura sua diretoria contratando por último o CEO ter os valores definidos pelos acionistas alterados para os valores dos executivos é muito menor, conseqüentemente o risco de a companhia sair do rumo também é menor.

Então os acionistas, seja em controle difuso ou não, devem ter em suas agendas um espaço para reflexão sobre a missão e os valores da companhia, pois estes nortearam a elaboração de um código de conduta consistente com total sinergia com “O QUE e QUEM é a companhia”. Isto também é assunto para gestão de riscos, pois, se a condução da empresa sair dos valores definidos pelos acionistas, ela poderá não estar seguindo o caminho mercadológico que deveria trilhar, o que pode causar impacto nos seus resultados financeiros e conseqüentemente em sua performance na bolsa.

Nos EUA

Um fato interessante aconteceu com a Boeing. Sua sede em Seattle no Estado de Washington fica próxima da fronteira com o Canadá, no lado do Oceano Pacífico; durante muitos anos somente pessoas da região trabalhavam para a Boeing, estas, talvez por conviverem desde seu nascimento naquela região, tinham os mesmos valores que eram compartilhados pela empresa, sem nenhum documento escrito.

De repente, a empresa recebe um comunicado dizendo que ela está excluída da lista de fornecedores do governo federal estadunidense. O fato é que havia uma concorrência muito grande para o governo, e um profissional da Boeing foi ao departamento que estava coordenando a concorrência para obter o edital (de uma forma ilícita) de concorrência antes das outras empresas, a fim de que a Boeing se preparasse melhor do que as outras empresas concorrentes.

A Boeing pesquisou o assunto para identificar o que havia ocorrido, pois esta prática não estava na conduta da Empresa. Nessa pesquisa, foi constatada uma mudança no perfil dos profissionais da Boeing que não eram mais em sua maioria do Estado de Washington, ou seja, com o crescimento da empresa também o perfil do quadro de seus profissionais foi mudado, e, para alguns profissionais, os valores eram diferentes, como passar à frente a qualquer custo.
Isto motivou a Boeing a desenvolver seu código de conduta, em que seus valores estavam expressos e explícitos.

Para que a empresa não pratique valores que não são os dos seus acionistas, é fundamental que o corpo dos principais executivos siga estes valores e não criem novos, como na Enron, e também deixe claro para todos os públicos estratégicos quais são os valores que permeiam a empresa, desta forma a companhia correrá menos riscos e poderá criar maior valor.

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