Costumo há anos usar uma expressão para designar o valor de uma visão externa para a solução dos problemas que exigem inovação e criatividade: “o lugar mais difícil para ler o rótulo é de dentro da garrafa” – mais recentemente, a expressão “pensar fora da caixa” tornou-se bastante comum, a ponto de hoje ser uma frase-feita, sobre a qual pouco se pensa de fato. Gosto da variação sobre o rótulo e a garrafa porque muitas vezes, as soluções estão tão claras para quem vê de fora que parece, mesmo, que há um rótulo impresso – e só não o lêem os que estão dentro da garrafa.Foi a essa conclusão que chegaram vários inovadores contemporâneos, ao buscar soluções inovadoras fora de seus círculos contratados. Mais que qualquer outro, Larry Huston, vice-presidente de Inovação da Procter & Gamble, sistematizou esta busca externa e em oito anos fez crescer o resultado da P&G em mais de 86 bilhões de dólares, mantendo essencialmente a mesma equipe e o mesmo investimento.A essência do que Larry Huston faz é dizer a uma rede externa quais são as necessidades ou oportunidades de mercado para a P&G, tendo então como resposta soluções prontas ou semi-prontas. Com isso, ele adicionou milhões de cientistas e inovadores à já notável rede de nove mil cientistas de primeiro nível que trabalham em pesquisa e desenvolvimento como quadros contratados da empresa.Assim descobriu, por exemplo, que o dono de uma padaria em Milão havia desenvolvido uma tecnologia para imprimir com tinta comestível sobre as coberturas dos bolos que fazia na padaria – e essa tecnologia foi desenvolvida e usada para imprimir desenhos de personagens animados nas batatas Pringles, num negócio de milhões de dólares, desenvolvido em tempo recorde.O próprio Larry Huston, em sua palestra na Fórum de Lucratividade de HSM em São Paulo, apresentou o case do Apple i-Phone: desenvolvido em oito meses, desde o início até a entrada no mercado, aproveitando partes existentes (como o sistema operacional) e partes desenvolvidas por outras empresas (como a touchscreen).O fato é que aproveitar as inovações já iniciadas por outras empresas ou as idéias de profissionais de fora da empresa tem sido essencial para o desenvolvimento da Apple e da Procter & Gamble, apenas para citar dois expoentes da co-criação. Mas o que faz com que essas empresas aproveitem todo esse potencial, e seus competidores não façam o mesmo? Essencialmente, uma única coisa: mente aberta.Inovação aberta e co-criação exigem uma mente aberta; e obviamente isso não significa que não haja segredo industrial envolvido – mas apenas que essas empresas podem utilizar o valor previamente criado, sem a necessidade de criar tudo do zero, porque aceitam que as idéias é que são importantes, e não de onde elas vêm. Obviamente, paga-se bem por essas idéias – mas paga-se por um desenvolvimento que é conhecido, com um resultado previsível, diretamente relacionado ao objetivo.Essas empresas têm a mente aberta para comprar idéias, e não comprar apenas tempo de profissionais contratados. Se as idéias foram criadas há um ano ou dez anos, não faz diferença. Foram criadas numa segunda-feira à tarde ou durante as férias de verão do inventor? Também não importa. Não há relação tradicional de contratação de funcionário. Quem teve a idéia, inclusive, é o dono dela, e pode se negar a vender, se assim decidir. E isso sugere um novo modelo de negócio, onde deverá ser ajustada uma participação para o criador da idéia, vindo das receitas geradas pelo produto resultante.Mas, antes de tudo, não há nesse jogo mais espaço para a mentalidade feudal que se considera dono de seus colaboradores e das idéias que eles gerem. Essa mentalidade ainda resiste em muitas empresas – que não poderão colher os frutos desta nova atitude de inovação enquanto não entrarem realmente no espírito aberto das relações de trabalho intelectual do século 21.
Paulo Ferreira é publicitário, atua como consultor especialista em Gestão Estratégica de Negócios; é editor-contribuinte do All Music Guide e consultor de imagem e comunicação da Wasaby Innovation.
Fonte: http://cabradm.blogspot.com/2009/08/inovacao-co-criacao-e-outsourcing.html
Inovação, Co-criação e Outsourcing Criativo
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