15 de setembro de 2009

O que andam pensando sobre nós?

O que andam pensando sobre nós?

A revista britânicaThe Economist lançou em seu site em 13 de agosto, um artigocujo título pode ser traduzido por “De que lado o Brasil está?”.
Esta revista é uma dasmais conceituadas internacionalmente, sendo assinada por todas asgrandes instituições de pesquisa no mundo, investidores do setoreconômico, governos, como também por pessoas comuns. Assim, elapode ser considerada uma grande formadora de opinião públicainternacional.
Ela inicia o artigodizendo que este é um período muito bom para ser brasileiro,especialmente o nosso presidente. Afinal de contas, o gigante daAmérica Latina passou a ser cotado em qualquer lista dos poucoslugares que importam no século 21, e também como um dos grandesinterlocutores internacionais, seja para a reforma financeirainternacional ou para mudanças climáticas. Parte desse papel sedeve, segunda a revista, ao perfil do presidente Lula, que foi umlíder sindical com instinto conciliatório, que conseguiu arrancarelogios tanto no presidente americano Barack Obama, quanto do lídercubano Fidel Castro.
Do ponto de vistaeconômico, a The Economist lembra que, após o banco deinvestimentos Glodman Sachs ter colocado o Brasil junto com China,Rússia e Índia na expressão BRIC, que seriam os países quedominariam o mundo no ano de 2050, muitos analistas diziam que nósnão deveríamos estar neste grupo. Hoje, após a crise econômica, éa Rússia que passou a ser questionada se merece estar nestaclassificação. Além disso, dentre esses países, o Brasil é omais “ocidental”, assim como, diferentemente de China e Rússia,é uma grande democracia em uma região tradicionalmente democrática.
Apesar dessascaracterísticas, os britânicos lembram que a política externa dogoverno Lula foi de aproximação com os países emergentes do “sul”.Esta postura pode ter rendido a abertura de novos mercados para osprodutos brasileiros na Ásia, África e Oriente Médio, masquestiona qual seria o fator que manteria esses países unidos?Lembra que foi a China a primeira a bloquear qualquer negociaçãosobre a ampliação do Conselho de Segurança das Nações Unidas,onde o nosso presidente sonha em conseguir um assento permanente.Assim como foi a Índia que praticamente sozinha terminou com aesperança de finalizar as negociações de Doha na OMC, tão cara aonosso ministro Celso Amorim.
A revista lembra dealguns pontos negativos em relação a algumas atitudes da políticaexterna brasileira. Primeiro a recusa em assinar um acordo paramelhorar as inspeções internacionais em reatores nucleares para usocivil. Em segundo, não termos apoiado a condenação por abuso aosdireitos humanos os governos da China e de Cuba. Terceiro, no campoda defesa da democracia, ter parabenizado tão rapidamente opresidente iraniano pela sua vitória em uma eleição altamentecontestada e que resultou na repressão e morte de opositores.
O artigo terminaquestionando qual deverá ser a postura do Brasil quando assumir oassento rotativo no Conselho de Segurança em janeiro próximo,quando terá que decidir se apoiará ou não sanções econômicasmais duras contra o Irã, que tenta desenvolver sua bomba nuclear deforma que desrespeita acordos internacionais. Ou então, se teremos ainiciativa de não apoiarmos uma postura que mina a democracia naAmérica do Sul, como vem fazendo o presidente venezuelano HugoChávez.
Diante de taisargumentos, é preciso que nós brasileiros nos questionemos se, afim de conseguirmos status, prestígio e mercados para nossosprodutos, o Brasil precisa tomar posturas contrárias a valores comodireitos humanos e democracia. Valores que fazem parte da nossasociedade, e que lutamos tanto para reconquistar depois de anos deditadura. As sociedades dos países desenvolvidos já estãoavaliando isso, como fica explícito no artigo da Economist, epoderão tomar medidas que possam vir a prejudicar todo o esforçobrasileiro de desenvolvimento econômico, se decidirem, por exemplo,boicotar produtos made in Brazil.

GuntherRudzit é Doutor em Ciência Política pela USP e professor doSustentare Escola de Negócios.

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