Um dia desses o presidente de uma empresa me contou, desconcertado, como estava despreparado para lidar com os jovens talentos. Ele havia acabado de fazer uma palestra para os recém-recrutados trainees da empresa, na qual se incomodou com um deles que não parava de usar o celular durante sua fala. Não aguentou e, depois de um tempo, disse para o rapaz que considerava aquilo umafalta de profissionalismo. A resposta foi surpreendente: “Estava apenas tomando notas das suas colocações para enviar ao grupo no final! Por favor, me diga o seu e-mail para que eu possa mandar o arquivo agora mesmo.”
Temos nos deparado com uma realidade bastante inusitada.Hoje é natural que as pessoas respondam os e-mails de trabalho em suas casas à noite e entrem na internet no meio da tarde, do escritório, para comprar um presente para um amigo ou escolher o filme que irão assistir mais tarde. Blackberries, MSN, Skype, são ferramentas que trazem muita mobilidade e flexibilidade, mas que ao mesmo tempo geram uma expectativa nos outros de que estaremos disponíveis 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Se, por um lado, estimulamos cada vez mais a atitude empreendedora nos colaboradores, ou seja, cobramos deles responsabilidade, iniciativa e proatividade, por outro lado, temos efetivamente cada vez menos controle sobre o que eles estão fazendo. E para que os profissionais possam nos entregar bons resultados devemos ainda, como líderes, oferecer todo tipo de suporte possível. O que exige um alto grau de disponibilidade e, sendo realista, uma boa dose de criatividade também.
Qual a melhor forma de lidar com tudo isso? A resposta passa por uma palavra-chave: confiança. Em um ambiente de trabalho no qual realmente existe essa atitude entre o líder e a sua equipe, a comunicação flui nos dois sentidos, os erros são valorizados como aprendizagem, há espaço para sugestões e reclamações, as pessoas se desenvolvem mais e comemoram juntas cada conquista obtida.
Os líderes devem aproveitar todas as oportunidades para construir essa confiança. É muito importante que consigam externar o valor e a importância do trabalho de cada um dos seus colaboradores e que saibam transmitir com clareza a missão, o propósito e as metas da empresa. Precisam ainda saber compartilhar boas e más notícias, orientar a equipe, apontar caminhos e alinhar expectativas dentro da equipe durante a realização de trabalhos em grupo. Devem dar aos colaboradores a oportunidade de expressar suas ideias antes que seja tomada uma decisão que tenha impacto direto no trabalho deles, já que quando as pessoas são envolvidas no processo decisório, tendem a apoiar a decisão final, mesmo que ela não siga exatamente as sugestões recebidas. Além disso, é surpreendente o nível de energia e de inovação que se pode liberar dentro da organização por meio da implementação das ideias e sugestões vindas das diversas áreas da empresa.
Ao desenvolver e cuidar de equipes, é importante lembrar que cada pessoa tem um jeito próprio de ser e de lidar com as mais variadas situações. Um projeto complexo pode ser percebido como uma barreira por alguns funcionários e como uma ótima oportunidade de mostrar o seu talento por outros. Cabe ao líder ser flexível, respeitar esses diferentes perfis e encontrar a melhor forma de se relacionar com cada um, procurando dar sempre feedbacks de maneira construtiva, com o intuito de ajudar os colaboradores a perceber as oportunidades de melhoria. Agindo dessa maneira, ele conseguirá fazer com que cada membro do seu time sinta que pode confiar nele e tenha vontade de dar em troca o melhor de si. Além disso, o líder não pode esquecer de reconhecer o esforço dedicado e o bom desempenho. E, claro, celebrar os resultados alcançados.
Embora a gestão baseada na confiança implique em abrir mão de alguns mecanismos de controle e em dar mais autonomia para que as pessoas tomem as decisões necessárias para o alcance das metas, é muito importante que não se perca o foco da cultura. Contratar as pessoas certas e inseri-las da melhor forma no ambiente empresarial representa algo fundamental para assegurar o alinhamento com a cultura desejada. Da mesma forma, é importante tomar uma atitude com relação àqueles que não agem de acordo com os valores da empresa.
Estudos realizados mundialmente pelo Great Place to Work® Institute em mais de 40 países com as Melhores Empresas para Trabalhar® mostram que as empresas que apresentam os maiores níveis de confiança em seu quadro de funcionários crescem mais rapidamente, têm uma melhor rentabilidade, são mais inovadoras, apresentam menores níveis de absenteísmo e rotatividade e recebem uma maior procura espontânea de bons candidatos a emprego do que as demais. Pode haver inúmeras formas de lidar com os desafios da liderança no cenário atual, mas com certeza as melhores soluções têm como base a confiança!
Andrea A. Veras é diretora de marketing e desenvolvimento de liderança do Great Place to Work Institute Brasil.
Fonte: http://cio.uol.com.br/opiniao/2010/03/25/os-atuais-desafios-dos-lideres/
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