26 de novembro de 2009

Planeta design

Planeta design

Vocêcertamente já reparou: o mundo está mais quente, mais bagunçado,mais sujo, mais seco, e mais preocupado também. A autodestruiçãodeve se completar em algumas centenas de anos. E tem uma notíciaainda pior: boa parte da culpa é do design!
Éisso mesmo, uma disciplina tão cheia de beleza e ideais nobres temculpa no cartório, e muita.
Nascidocom a revolução industrial, o design foi concebido para trazerconforto e beleza para a plebe, que sempre foi maioria no mundo. Oque antes era produzido por talentosos artesãos para uso exclusivoda nobreza, passou a ser comum nas casas da numerosa categoria dossem-brasão. E dá-lhe bugigangas. Praticamente tudo passou a serproduzido em escala industrial a preços sedutoramente acessíveis,para deleite dos consumistas de plantão. Foi quando o design se uniuao marketing e os objetos passaram a fazer as vezes de remédio paratodas as questões humanas: nossos desejos, necessidades,descontroles emocionais, carências e dores passaram a ser resolvidoscomprando e consumindo cada vez mais e mais.
Aconseqüência disso foi a produção de lixo e desperdício deenergia também no atacado, em dimensões nunca antes vistas nesteplaneta cada vez mais sujo e maltratado.
Eagora? Bom, o povo do design também já notou o tamanho do estrago,e corre para apagar esse incêndio nem tão metafórico assim. Hoje,os projetos já contemplam estudos mais aprofundados sobre o ciclo devida do produto e registra-se até o nascimento da logísticareversa, que trata do retorno dos produtos, das embalagens e dosmateriais ao local onde foram produzidos.
Outraárea em crescente expansão (inclusive em prestígio e popularidade)é o ecodesign. Essa atualíssima área, antes relegada aosbicho-grilos e agora defendida por cosmopolitas engajados,preocupa-se em elaborar projetos que reduzam o impacto ambiental devárias maneiras: usar materiais não tóxicos e menos poluentes,privilegiando a reciclagem; pensar em processos produtivos queenfatizem a eficiência energética; elaborar produtos com maisqualidade e que durem mais, gerando menos lixo; projetar de maneiramodular, onde a parte com problema pode ser substituída, sem queseja preciso jogar fora o objeto inteiro; e, finalmente, areutilização e o reaproveitamento.
Estamosainda muito longe de colher os frutos do ecodesign em uma escala quefaça diferença, mas os designers, mesmo aqueles mais desligados dosproblemas ambientais, deveriam prestar atenção em detalhes que nãodoem nada.

Inovaçãoe o conceito de awesomeness

UmairHaque, diretor do Harvas Media Lab, explica no seu “TheAwesomeness Manifesto” porque isso é necessário.
Édifícil traduzir awesomeness,que seria mais ou menos a capacidade de impressionar, causar espanto.
Haquediz que a palavra inovação soa como uma relíquia da era industriale que, por isso, a própria palavra precisa ser inovada.
Elelembra que inovação implica em obsolescência. Inovação foi umconceito pioneiro criado pelo economista Joseph Schumpeter eutilizá-lo implica também em aceitar a teoria da destruiçãocriativa, onde o mercado se sustenta à base da substituição doantigo pelo novo. Só que não dá mais para continuar nesse ciclomaluco, os resultados estão aí para quem quiser ver. À luz dasustentabilidade e do conceito de interdependência, obsolescência éque é um conceito obsoleto.
Haquelembra também que a inovação trata basicamente de empreendedorismoou seja, toda boa ideia precisa se transformar em negócio lucrativopara merecer o título de inovação. Seguindo esse princípio, o quese percebe é quase tudo já foi inventado e não apenas isso: estáà venda em qualquer esquina ou site. Poucas coisas fundamentalmentenovas estão sendo criadas nos dias atuais. A inovações cada vezmais caminham para encontrar maneiras novas de vender, apenas isso.
Oautor lembra que o desafio do século XXI não é desenvolver acriatividade para vender mais coisas; o problema é construir coisasmelhores e com menos impacto para o planeta.
Aexpressão mais usada no mundo corporativo é “agregar valor”.Ora, segundo Haque, mais valor é uma ilusão. A maioria das empresasconsegue criar um pequeno valor, nada significativo que justifique ouso indiscriminado do termo. Valor de verdade, grande, para Haque,tem que ser sustentável.
Issosignifica realmente fazer melhor, não apenas adicionar botões em umtelefone ou sabores em um refrigerante.
Aliás,essa história de acrescentar botões a um ritmo frenético reduzindoo ciclo de vida dos produtos e os jovens (ou seja, as pessoas queherdarão essa encrenca toda) trocam de celular mais frequentementedo que trocam de escova de dentes.
Acada dia das mães, natal, dias dos pais, namorados, páscoa, dia dacriança, chovem promoções irresistíveis. Tudo é motivo parajogar fora o novo e trocar pelo novíssimo. Observando as pessoasensandecidas para trocar aparelhos em excelente estado defuncionamento fico me lembrando de um conto de ficção científicaque eu li há muitos anos e que me impressionou muito.
Oconto, de Frederik Pohl, chamado “Ohomem que comeu o mundo” conta a surpreendente históriade um menino que vive em algum lugar no futuro.
Nomundo dele, onde a produção não pode parar de crescer, o consumotambém não pode estabilizar. Sua família é muito pobre e, porisso, os pais são obrigados a passar as noites fora, consumindodesenfreadamente em bares e afins.
Duranteo dia, precisam comprar sem parar em shoppings. O menino mora numacasa imensa e se sente solitário com seus numerosos guardiãeseletrônicos e montanhas de brinquedos inteligentes, trocadosdiariamente. E o menino é profundamente infeliz.
Oproblema é que ele queria um quarto pequeno e aconchegante, e nãodormir em um salão temático. Ele sonhava dormir abraçado todo diacom o mesmo ursinho de pelúcia, mas as versões mudam a cada dia eele precisa acompanhar as tendências.
Elechora porque quer o colo da mãe, mas ela tem que consumir, e, alémdisso, os robôs-babás precisam ser testados. Ele quer brinquedossimples, mas tudo tem que interagir e desenvolver suas infantiscapacidades cognitivas. Ele quer chorar, mas os procedimentos paraparar choro de criança são insuportáveis e enfadonhos. Ele querser rico.
Ricoé quem não precisa mais comprar. Rico é quem já tem o quenecessita, gosta das coisas que possui e não tem que servir decobaia para novos lançamentos. Rico não sente a obrigação de ter,pode se preocupar apenas em ser. E o máximo dos máximos, os meninosricos podem ficar com o mesmo ursinho de pelúcia até crescerem eeles mesmos decidirem quando não o querem mais.
Seráque vai chegar o dia em que só os muito ricos poderão ficar com omesmo aparelho celular por mais de um ano? Mais do que inovar edesenvolver novos produtos ecologicamente corretos, precisamos mudaros hábitos consumistas arraigados tão fortemente em nossa cultura.
Eagora não é mais ficção, é realidade mesmo.

Oconto citado, “Theman who ate the world”,é parte do livro “Thescience fiction weight-loss book”,editado por Isaac Asimov em 1983.

O“TheAwesomeness Manifesto”está disponível em<http://blogs.harvardbusiness.org/haque/2009/09/is_your_business_innovative_or.html>

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