Homens e mulheres adotam estilos de comunicação diferentes. A diferença reside, basicamente, nas distintas razões que movem ambos os sexos - e isso tem impacto na maneira como eles e como elas reagem a feedbacks críticos. Constata-se, por exemplo, que o objetivo dos homens, ao se comunicar, é construir independência e status. Embora eles costumem se apoiar em dados, fatos e estatísticas, estão sempre atentos a informações que possam auxiliá-los a galgar posições superiores. E as mulheres?Mulheres, frequentemente, crescem sob a concepção de que críticas significam que algo deve estar errado com elas. A pesquisa que desenvolvi junto a executivos e gestores em posição de liderança em 93 grandes empresas do sul mostra que o objetivo da comunicação, nas mulheres, é construir relacionamento e intimidade. Elas desfrutam da oportunidade de bater papo e interagir com os outros. Entretanto, quando são criticadas, sentem como se a conexão e a intimidade tivessem sido rompidas. Muitas vezes, esta conexão quebrada inaugura uma espécie de guerra fria. Machucadas em seus sentimentos, elas não falarão a respeito da crítica recebida.Esta reação que poderíamos chamar de guerra fria é algo particularmente difícil para os homens entenderem. Um homem pode ter um conflito com outro homem às 10 da manhã e, ao meio-dia, almoçar com essa mesma pessoa. Isso é muito difícil para a maioria das mulheres. Porque elas se sentem feridas e precisarão de algum tempo para restabelecer o relacionamento.Os números de minha pesquisa ratificam a expressão "mulheres pegam as coisas para o pessoal". Ao receber informações sobre o que não estão fazendo bem, as mulheres (28,2%) sentem-se mais criticadas que os homens (17,5%). Por outro lado, eles (14%) têm mais dificuldade em aceitar que podem ser mais ineficientes do que elas (10,3%).Naturalmente, não será por causa dessa reação típica que você evitará dar feedbacks críticos para as mulheres. Ambos, homens e mulheres, precisam feedbacks construtivos, sejam corretivos ou positivos, para crescerem e se desenvolverem. Saiba, entretanto, reconhecer que mulheres tendem a ser mais sensíveis às críticas do que os homens. E as mulheres precisam reconhecer que o feedback crítico não é sinônimo de desaprovação, nem rejeição. Muitas mulheres querem falar sobre a situação que originou o feedback negativo e restabelecer a conexão. Mas a melhor hora para isso é normalmente quando elas querem.Homens gostam de fazer jogos ou impressionar os outros com seu conhecimento. Eles provam sua sabedoria para eles próprios através das conversas. Ao receber uma crítica, homens inicialmente não gostam, porque isso rebaixa seu status e independência. Entretanto, se você criticar um homem com exemplos e fatos específicos, ele poderá concordar mais facilmente e se sentirá bem com o que ouviu, porque entende que isso poderá ajudá-lo mais efetivamente.Um dos motivos para essa diferença pode estar ligado à circunstância de que homens frequentemente crescem praticando esportes. Acostumados a receber críticas sobre sua performance, veem esse tipo de feedback como um meio de alcançar a performance ideal. Felizmente, essa diferenciação vai ficando no passado, tendo em vista a dedicação cada vez maior e mais prematura das mulheres à prática de esportes.
Elas "pescam" mais rápido
Mulheres tendem, também, a ser mais atentas aos sinais não verbais. Elas podem sentir quando as coisas não estão indo bem. Os homens, por outro lado, muitas vezes ignoram os sinais não verbais negativos até que a situação piore.A pesquisa também se debruçou sobre o modo como homens e mulheres internalizam experiências ligadas a feedbacks - principalmente os negativos, explorando como eles e como elas veem o seu insucesso. A diferença que encontrei nesse estudo é que homens tendem a externalizar falhas (ou seja, transferir a culpa para outros) e mulheres tendem a internalizá-las (assumir a culpa). Para simplificar, pense na prática do dia a dia. Se um homem não tem um bom desempenho num jogo de futebol, o que ele tende a fazer? Frequentemente irá culpar os outros jogadores, o campo, o treinador... Homens têm dificuldade de admitir que talvez não sejam mais os atletas que um dia foram.Mulheres, ao contrário, tendem a internalizar imediatamente a crítica negativa. Elas têm uma forte inclinação para assumir que não são boas o suficiente. Frequentemente, não se consideram boas mães. Se o filho apresenta problema na escola, a mãe facilmente vai pensar que não lhe deu atenção suficiente por estar trabalhando. Provavelmente, elas não irão questionar a fonte da crítica ou a possibilidade de que seja infundada.Os comentários mais relevantes dos executivos ouvidos nessa pesquisa descrevem o feedback como uma ferramenta bastante útil para estimular a análise frequente das situações, corrigir erros, diminuir o retrabalho, favorecer a análise de desempenho e permitir, à equipe, a visualização de novos rumos e possibilidades para crescer. Também há relatos de que o feedback melhora o nível de comprometimento das equipes ao dar clareza sobre o que um pensa sobre o outro e como cada um está envolvido com suas atividades. Em consequência, diminui as fofocas e os mal-entendidos, evitando a "rádio peão". Neste aspecto, há sintonia com as conclusões de outras pesquisas, nas quais as empresas menos eficientes são exatamente aquelas marcadas pela tendência de esconder o conflito e evitar a troca de informações entre o gestor e o funcionário sobre desempenho no ambiente de trabalho.Infelizmente, as estatísticas, inclusive as dessa pesquisa, mostram que é preciso avançar muito no uso dessa ferramenta. Especialmente na faixa etária entre 18 e 34 anos, constatei que homens e mulheres são altamente sensíveis a críticas - o que pode ser atribuído ao fato de que, nesta fase, ainda estão em um processo de desenvolvimento do senso de identidade. O medo de ser criticado e, também, de errar ao formular uma crítica gera uma situação de ausência de feedback.Nessa pesquisa, 75,7% dos homens afirmaram que não recebem retorno informal diário. Entre as mulheres, o quadro é ainda pior: 86,2% não recebem esse nível básico de feedback. E quem mais foge dessa situação são os homens - principalmente pelo temor de "criar atritos". Uma particularidade interessante na comparação dos sexos é que a mulher se sente mais à vontade para dar feedback aos seus chefes do que o homem. Em contrapartida, elas têm muito mais dificuldade que os homens para criticar ou elogiar subordinados.Aprender a dar e receber feedback é fundamental na empresa moderna. Procure entender melhor você mesmo, saber do que você gosta, identificar suas carências e potencialidades. Tudo isso ajuda a amenizar o impacto de um comentário desfavorável. "Conheça-te a ti mesmo", já diziam os gregos há quase 3 mil anos. Hoje, os mais modernos treinamentos têm partido do princípio de que não há liderança eficiente se não houver autoconhecimento. Parafraseando o grande Peter Drucker, minha recomendação para o sucesso na vida profissional é "Saiba quem você é".
*Simoni Missel é psicóloga e diretora da Missel Capacitação
Fonte: revista Amanhã - http://www.amanha.com.br/NoticiaDetalhe.aspx?NoticiaID=33ab4acd-cccc-4824-b6ec-49c37ec5da43
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