15 de outubro de 2011

"Sustentabilidade é um jeito de fazer negócios"

"Sustentabilidade é um jeito de fazer negócios"

ENTREVISTA | Júlio Bin, 
Professor da Sustentare Escola de Negócios, bacharel em Administração de Empresas (Universidade Mackenzie, SP), especialização em Marketing (Universidade Westminster, Inglaterra) e Negócios Sustentáveis (Universidade de Cambridge, Inglaterra). Tem 25 anos de experiência profissional como executivo de grandes empresas, desde 1999 dedica-se à inserção da sustentabilidade no planejamento estratégico e comercial de organizações Privadas  e do Terceiro Setor.

Sustentare Escola de Negócios - Há uma verdadeira preocupação com sustentabilidade nas empresas brasileiras?Júlio Bin – Gostaria de responder que sim. Mas o que existe é uma crescente percepção sobre o tema, que tem motivado algumas empresas a procurar caminhos para incluir a sustentabilidade em seu modelo de negócios, enquanto muitas outras não sabem exatamente por onde começar. Acredito que as empresas, de um modo geral e não só as brasileiras, encontram-se em um dos quatro estágios de uma escala que pode ser usada também para as pessoas. O primeiro estágio é o defensivo: a sustentabilidade aparece como inimigo. A empresa entende que existe um  debate sobre o tema, mas se fecha para o assunto por  desconhecimento. O segundo nível é o preventivo. Ainda por desconhecimento, a empresa  percebe o tema como risco e pelo receio de errar  deixa a sustentabilidade de lado. Terceiro nível: ofensivo. A empresa já entendeu o tema, e a sustentabilidade passa a ser uma oportunidade de negócios. Por fim, o quarto nível, o efetivamente sustentável. Ou, para as pessoas, a etapa do “Eusustentável”. A sustentabilidade passa a ser um jeito de ser e de fazer negócios, passa a fazer parte do DNA.
Sustentare – E como estamos no Brasil?JB – Temos poucas empresas no estágio quatro e muitas chegando ao três. A maioria, porém, ainda está entre os estágios um e dois. Mas, é no nível três que existe um grande risco.

Sustentare – Que risco seria esse?JB – Nesse estágio a empresa pode entender e atuar pela sustentabilidade por convicção ou por conveniência – em outras palavras existe uma linha tênue entre o ético e o cosmético . 
Sustentare – O estágio três é uma estrada que se bifurca?JB – Não existem dois caminhos. A partir do momento que o tema está inserido no modelo de negócios de uma organização, se for uma decisão ética, só existe um caminho. 
Sustentare – Isso vale para empresas de todos os portes e setores?JB – Vale para todo mundo – empresas e pessoas. O entendimento tem que partir do indivíduo. Se eu não perceber e entender qual o meu papel para que o desenvolvimento ocorra de forma sustentável na minha família, no meu bairro, na minha cidade e no meu país, - não vou conseguir levar para a empresa onde trabalho. Mas também pode ocorrer o inverso: educar e despertar as pessoas para sustentabilidade dentro da empresa e espalhar para os familiares e amigos. Nesse caso, é preciso estar preparado para assumir a responsabilidade de ser um cidadão consciente e agir de acordo, ser um exemplo e quem sabe até uma referencia. A sustentabilidade é uma nova forma de ver e enxergar o mundo, uma nova forma de entender que para cada ação, por menor que seja, há uma reação, onde nosso papel de cidadão e profissional não são distintos. Devemos todos ser lideres nesse processo e trabalhar pela sustentabilidade, em casa ou no trabalho, independente do nível socioeconômico e independente do cargo ou posição na empresa. Uma vez que entendamos os impactos de nossas ações e decisões. não existe volta, passamos a ser soldados nessa batalha pelo bem comum. 
Sustentare – E qual o papel das escolas?JB – Educação é fundamental.  Não só pela transversalidade a todas as disciplinas, mas por seu importante papel na formação da cidadania. Vamos pensar: no ensino básico, por exemplo, você consegue colocar conceitos de sustentabilidade em aulas de matemática, química, física, biologia, história, etc. A vida está presente em qualquer disciplina e, se considerarmos a relação do homem com o planeta, com as pessoas e com a economia, a vida deve ser também a base de todas as decisões. O educador tem que entender o seu importante papel  em despertar e elucidar sobre este tema e deve colocar conceitos de sustentabilidade na disciplina que ministra. O professor pode constantemente reforçar valores e a importância da justiça, honestidade e respeito para o desenvolvimento sustentável de uma nação. Repito, a educação é essencial para mudarmos esse cenário onde  muitos dos problemas que temos em nossa sociedade hoje, principalmente aqueles relacionados à governança, vem da ausência de princípios éticos.

Sustentare - Sustentabilidade é compatível com o padrão de negócios atual? Lucro e sustentabilidade são compatíveis?JB – É o contrário. O problema é o modelo de negócios que temos. Esse sim é insustentável. Se esquecermos a palavra e pensarmos no que sustentabilidade significa, ora, vamos ver que ela sempre existiu e existirá. Sustentabilidade significa entender que os recursos biofísicos do planeta são finitos, que o bem estar das pessoas dever ser equitativo e lucratividade não pode estar somente atrelada aos ganhos financeiros. Se não houver equilíbrio entre estas variáveis, não haverá futuro!  O planeta não está em risco. O que está em risco é nossa existência nele. Temos que encontrar uma forma de criar um modelo econômico equilibrado, sustentável, onde o crescimento e lucratividade não signifiquem literalmente consumir o planeta e as pessoas. 
Sustentare - E com emergentes chegando no mercado de consumo, como fica essa equação?JB.  O problema é que as pessoas acham, ou são levadas a achar, que para ser feliz é preciso ter, preferencialmente, aquilo que não podem ter ou que não precisam ter. O ser humano é induzido a ser uma maquina de consumo que vive para alimentar um modelo econômico desenhado no século 19, na Revolução Industrial. Esse modelo estimula o consumo cíclico com o único objetivo de obter lucros financeiros, e se justifica com a geração de empregos e o crescimento do produto interno bruto (PIB), que por sua vez não leva em consideração a vida (de pessoas e do meio ambiente) no planeta. Precisamos questionar esse modelo e reavaliar a definição de crescimento econômico. O progresso é medido pelo status de ter e não pela qualidade de ser. Temos que reavaliar o que verdadeiramente importa. As indústrias têm que se reinventar e fazer com que a Vida seja verdadeiramente levada em consideração em todas as suas decisões. 
Sustentare - O cosmético, as vezes marqueteiro, ainda é forte nas empresas quando se fala de sustentabilidade?JB – Existe uma grande diferença entre marketing responsável e marketing oportunista, que se utiliza do tema socioambiental por conveniência, apenas para induzir clientes ao consumo. Marketing responsavelmente é utilizar o tema por convicção, para que as ações de uma empresa possam servir de exemplo e até orgulho para seus stakeholders e possam até ser uma referencia para a sociedade. Usar o conceito de sustentabilidade de forma cosmética é um grande erro. Os consumidores estão cada vez mais responsáveis e saberão boicotar empresas, produtos e serviços que não façam esse movimento de forma ética e verdadeira.
Sustentare - O Brasil caminha para tornar-se um líder global e possivelmente nos próximos 30, 40 anos, um país desenvolvido. Que país estamos caminhado para ser: um país preocupado com sustentabilidade ou c
om o consumo de bens duráveis e não-duráveis?JB – Ainda estamos sob o chassi da Revolução Industrial, o que significa que o País está crescendo e tem condições de ser uma potência, mas ainda exclui socialmente uma grande parcela da população de forma vergonhosa. Dessa forma, não da para dar certo. O Brasil pode e vai ser uma liderança quando se preocupar em valorizar e investir numa questão essencial que é a educação. Se investirmos agora que estamos em um período de pujança econômica, se tivermos uma convergência de objetivos entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil, priorizando a educação como a base para a formação de cidadãos conscientes e responsáveis, construiremos uma sociedade estruturada e com sensível melhora na qualidade de vida e na autoestima do brasileiro.  Além disso, saberemos utilizar de forma sustentável os importantes ativos ambientais, sociais e culturais que faz do Brasil uma das grandes potencias da nova economia. 

Sustentare - E sobre o debate entre para formar cidadãos?JB - A nova economia precisa de um novo modelo educacional. Ele deve estar direcionado para a formação do SER e não do TER. A formação técnica é importante, mas antes é preciso ter uma formação holística, com valores morais e éticos para que seja possível entender qual o  papel de cada um como cidadão do planeta. Hoje o que vejo é uma ausência de informações básicas para o jovem entender qual o seu papel na economia, principalmente num momento tão importante e decisivo da historia da humanidade. Precisamos formar cidadãos e líderes que entendem que não pode haver progresso ou prosperidade enquanto continuarmos a transformar a vida em commodities negociáveis para a pura obtenção de lucro. Como disse o Prêmio Nobel de Economia, John Nash: “Toda busca de excelência é excludente, a não ser que seja totalizante”, ou seja, não pode dar certo um sistema onde muitos precisam perder para que alguns ganhem. São exatamente esses ganhos e objetivos imediatistas, de curto prazo, que comprometem o futuro de nossos filhos. Sustentare - Como o consumidor pode pressionar as empresas? É factível pensar em mudança no modelo de consumo?JB – Primeiro, com a sua consciência. A partir do momento que ele entende sua responsabilidade como cidadão e o poder que tem de exigir respeito à sua cidadania. O resultado natural de um consumidor responsável são produtos e serviços  mais sustentáveis, tanto de empresas privadas como das publicas. Considerando a ausência de regulamentações para ajudar o consumidor, acredito que o processo esta caminhando, mas é preciso acelerar para que a efetiva mudança no modelo possa acontecer e as empresas por sua vez, entendam de uma vez por todas que este é o futuro.As empresas que adaptarem seus processos e sua gestão para atender ao novo consumidor da nova economia serão com certezas mais competitivas e definitivamente mais sustentáveis. 

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