Uma mudança radical nos conceitos de risco nos mercados globais
Há pouco mais de uma década atrás, o mundo vivia uma época de recorrentes problemas financeiros nos países de menor expressão econômica, quando comparados com as grandes potências mundiais. Estas potências são representadas no grupo conhecido como G7, ou o grupo das sete nações mais ricas do mundo. Entre si, devido ao desenvolvimento atingido e à importância destas economias no contexto mundial o G7 definia padrões de conduta para o resto dos países. Eles lideravam o comércio mundial, as teorias econômicas, seus economistas ganhavam o prêmio todos os anos, influenciavam o pensamento econômico e o dia-a-dia da condução do que os países deveriam fazer para atingir o crescimento.
Havia um hábito corrente de se referir aos países mais pobres como subdesenvolvidos que, devido ao advento da era do “politicamente correto”, passaram a ser designados de países emergentes. Estes países apresentavam índices de inflação altos, baixo crescimento do PIB, renda per capita baixa, níveis de poupança baixíssimos, moedas nacionais não-conversíveis e desvalorizadas, altos déficits fiscais, baixa oferta de crédito doméstico, nenhuma credibilidade internacional e, portanto, nenhum ou quase nenhum acesso aos abundantes recursos nos mercados de capital internacionais.
Dez anos se passaram, reformas foram implementadas, ajustes foram conduzidos na legislação e nas políticas monetárias e fiscais. Aliado a este fator, a grande maioria destes países menos industrializados era grande produtora e exportadora de commodities. Na década atual, a década das commodities, tudo veio se encaixar para se constituir na maior mudança de eixo da riqueza nos últimos séculos.
Os países desenvolvidos continuam desenvolvidos em várias coisas, mas estão sobremaneira mais pobres. O excesso de confiança traz à tona a negligência em relação aos riscos. O excesso de liberalização da economia pode levar a um crescimento desordenado. A tal ponto que estamos na era de confrontar duas teorias clássicas da economia: John M. Keynes e Milton Friedman. O primeiro prega a forte intervenção governamental na economia, como essência do crescimento o investimento deve vir do governo. O segundo, monetarista, pregava a doutrina que reinou nos últimos quarenta anos, onde o investimento privado deve liderar e o governo deve apenas atuar de forma discreta no investimento na economia.
Os países em desenvolvimento apresentam excelentes números em suas contas macro-econômicas. Excelentes potenciais de criação de riqueza, pois se tornaram grandes exportadores e não somente de commodities, mas também de produtos semi-industrializados e industrializados. Estes países se reformaram e se recriaram em sua estratégia individual. As grandes nações, começando pela maior delas, os Estados Unidos, incorreram em grandes erros estratégicos já vividos pela grande Roma, séculos antes. O erro de gastar mais do que produzem, de importar muito mais do que exporta, de expandir o crédito acima dos limites aceitáveis de risco, de se descontrolarem na crença do eterno poderio econômico dos seus sistemas infalíveis de criação de riqueza. A dívida total dos Estados Unidos é de 4 vezes o PIB do país. O Déficit orçamentário é de USD 1,4 trilhão. Este ano ainda, a quantidade de recursos que o tesouro americano deverá captar através de emissões de mercado é enorme, chegando a preocupar o mercado internacional. Os pacotes de auxílio para resgatar a economia da crise deflagrada pelo mercado hipotecário sub-prime em 2008 e ainda o novo programa de saúde recém aprovado pelo governo americano, aumentaram ainda mais a necessidade de recursos que eles não têm, que virá dos investidores, inclusive dos países em desenvolvimento. Eles acumularam dívidas e reduziram suas riquezas.
Hoje, se somarmos as reservas em moeda estrangeira dos 7 maiores países em desenvolvimento teremos um resultado de cerca de USD 4 trilhões onde uma grande parte financia a dívida pública do G7. Se fizermos a mesma soma das reservas internacionais dos países que compõem o G7 teremos USD 1,7 trilhão. Se excluirmos o Japão do grupo, que sozinho detém USD 1,05 trilhão, os outros seis detém a quantia USD 686 bilhões em reservas. Esse indicador sozinho, talvez não seja representativo, mas se adicionarmos a redução na poupança interna bruta, o nível de desemprego e, sobretudo o endividamento governamental em todas as esferas, teremos números alarmantes que, anos atrás eram considerados de baixa solvência para os países emergentes. As agências de risco, eram extremamente rigorosas com estes números e hoje, com relação aos países ricos, fazem vista grossa. O rigor não é sequer próximo e se o fosse, teríamos uma debandada do risco de investimentos soberanos nestes países. A contração de dívida através de emissões de títulos nos mercados cresceu muito e ainda deverá crescer ainda mais nos próximos anos. Isto representa um grande risco para a economia mundial.
Os contínuos déficits comerciais e fiscais se transformam em déficits nacionais. Os déficits persistentes se tornam fonte de enfraquecimento das moedas destes países. Os países emergentes de outrora serão os maiores beneficiários desta mudança de eixos. São grandes participantes do comércio internacional, com grande potencial tanto de consumo e mais ainda de exportadores de produtos de todos os tipos. O Brasil, a China e a Índia, com produtos industrializados variados e o Brasil e a Rússia exportando também commodities. Juntos forma uma das siglas mais conhecidas nos mercados internacionais, o BRIC.
O Brasil aprendeu suas lições e terá uma grande parcela destes recursos mundiais investidos em seus mercados de capitais e financeiros. Isso trará maior valorização ao Real, pois, enormes quantias de capital externo virão buscar estabilidade e bons retornos nos mercados brasileiros. Dentre os países em desenvolvimento o Brasil se destaca, apresentando estabilidade política, econômica, liquidez nos mercados financeiros e um excelente mercado consumidor interno. Os indicadores do G7 representam um sinal de alerta para os investidores nos próximos tempos e se não adotarem medidas drásticas, tão drásticas quanto as que cansaram de nos sugerir no passado, os investidores irão por fim se cansar e virão alegremente trazer seu capital para as praias brasileiras. Estamos prontos.
Investir nos países emergentes já não parece tão arriscado...
Ricardo Della Santina Torres é economista e professor de MBA Executivo.');
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